Texto de Dallas Willard, extraído de “Clássicos Devocionais” (Richard
Foster e James Bryan Smith), Ed. Vida.
1.
Discipulado: somente para supercristãos?
A palavra “discípulo” ocorre 269
vezes no Novo Testamento. “Cristão” aparece apenas três vezes, e a palavra foi
usada pela primeira vez justamente para se referir aos discípulos. O Novo
Testamento é um livro sobre discípulos, escrito por discípulos e destinado aos
discípulos de Jesus Cristo.
Todavia, a questão não é simplesmente
verbal. O que mais chama a atenção é que o modo de vida encontrado nas
primeiras igrejas caracteriza-se por um tipo especial de pessoa. Todas as
garantias e todos os benefícios oferecidos ao ser humano no evangelho
pressupõem evidentemente esse tipo de vida e não parece fazer sentido fora
dele. O discípulo de Jesus não é um modelo de cristão, como um automóvel de
luxo ou um veículo robusto - almofadado, estofado, aerodinâmico e turbinado
para andar na faixa expressa de ruas retas e estreitas. Ele está nas páginas do
Novo Testamento como meio de transporte básico para o Reino de Deus.
2.
Os
discípulos não discipulados
Por pelo menos várias décadas, as
igrejas do Ocidente não fizeram do discipulado um requisito para ser cristão.
Não se exige de alguém ser ou querer ser discípulo para tornar-se cristão, e é
possível continuar sendo cristão sem nenhum sinal de progresso no discipulado.
As igrejas contemporâneas, em especial, não exigem como condição para membresia
seguir o exemplo, a atitude e os ensinos de Cristo – seja para ingresso, seja
para permanência na comunhão da denominação ou da igreja local. Qualquer
exceção reforça a validade do argumento e salienta a regra geral. No que diz
respeito às instituições cristãs visíveis de nosso tempo, o discipulado é
claramente opcional. As igrejas estão cheias de “discípulos não discipulados”,
como denomina Jess Moody. A maioria dos problemas das igrejas contemporâneas
explica-se pelo fato de os membros não terem decidido ainda seguir a Cristo.
Insistir em que Cristo seja
considerado Senhor não resolve o problema. Apresentar o senhorio de Cristo como
opção é considera-lo algo como a escolha de pneus de faixa branca ou de um
equipamento de som para o carro novo. São opcionais. Além do mais - lamentavelmente
- não esta clara sua utilidade. A obediência e o preparo para a obediência não
estabelecem uma unidade doutrinária ou pratica inteligível com a salvação
apresentada nas versões recentes do evangelho.
3.
Grandes omissões da Grande Comissão
A Grande Comissão de Jesus para a Igreja
institui um modelo diferente. O primeiro objetivo apresentado à igreja
primitiva foi a utilização de seu poder e de autoridade abrangentes para fazer
discípulos. Depois de se tornar discípulos, eles deveriam ser batizados no nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Com essa dupla preparação, deveriam ser
instruídos a guardar e observar “tudo o que eu lhes ordenei” (Atos 28.20). A
igreja primitiva do primeiro século foi o resultado da execução desse plano de
crescimento - um resultado difícil de superar.
Entretanto, no lugar do plano de Cristo, os
ventos históricos substituíram o discipulado por: “Façam convertidos (a uma fé
ou prática específica) e batizem-nos para que se tornem membros da Igreja”.
Isso reforça duas grandes omissões da Grande Comissão. O mais grave é que
começamos omitindo o fazer discípulos ou recrutando pessoas como seguidores de
Cristo, quando as demais coisas deveriam vir depois. Também omitimos a tarefa
de instruir os convertidos no processo que os fara cumprir cada vez com mais
acerto as orientações de Jesus.
As duas grandes omissões estão interligadas.
Sem transformar os convertidos em discípulos, e impossível ensina-los a Viver
conforme Cristo viveu e ensinou. Isso não fazia parte do pacote, do motivo da
conversão. Quando confrontados com o
exemplo e os ensinos de Cristo, a resposta dos cristãos de hoje caracteriza-se
mais como perplexidade que como rebeldia ou rejeição: “Como podemos identificar-nos
com isso? Que relação isso tem conosco?”.
4.
O discipulado naquela época
Quando Jesus viveu na terra,
havia certa simplicidade em ser discípulo. Isso significava principalmente
segui-lo em atitude de estudo, obediência e imitação. Não havia curso por
correspondência. As pessoas sabiam o que fazer e qual o custo disso. Simão
Pedro exclamou: “Nós deixamos tudo para seguir-te” (Marcos 10.28). Família e
ocupações eram deixadas para trás por longos períodos para seguir a Jesus.
Percorriam-se várias localidades para anunciar, mostrar e explicar o domínio de
Deus. Os discípulos precisavam permanecer com Jesus para aprender a fazer o que
ele fazia.
Imagine fazer isso hoje! Como os
familiares, patrões e companheiros de trabalho reagiriam a esse abandono?
Provavelmente, achariam que não damos muita importância a eles, ou mesmo a nós.
Zebedeu pode ter pensado isso quando viu seus dois filhos deixarem o negócio da
família para ficar com Jesus (Marcos 1.20). Pergunte a qualquer pai em situação
semelhante. Então, quando Jesus observou que é preciso deixar as coisas mais
preciosas – família, “tudo o que possui" e “sua própria vida” (Lucas 14) –,
pois era necessário acompanha-lo, ele declarou algo simples: esse é o único
caminho para o discipulado.
5.
Discipulado hoje
Apesar de caro, o discipulado
tinha um significado bastante claro e direto. Hoje o mecanismo é diferente. Não
podemos estar com Jesus literalmente da mesma forma que os primeiros discípulos
estiveram. Contudo, as prioridades e intenções - o coração e as atitudes
interiores do discípulo são sempre as mesmas. No coração do discípulo há um
desejo, e há decisão e intenção claras. O discípulo de Cristo deseja acima de
tudo ser semelhante a ele.
Por causa desse desejo,
geralmente produzido pela vida e pelas palavras daqueles que já estão no
Caminho, ainda e preciso tomar uma decisão: dedicar-se a ser como Cristo. O
discípulo é aquele que, dedicado a tornar-se como Cristo e permanecer em sua “fé
e pratica”, reorganiza sistemática e progressivamente sua vida com vistas a
esse objetivo. Com essas ações, mesmo hoje, quem é recrutado para o treinamento
de Cristo torna-se seu aluno ou discípulo.
Então, se desejamos ser
semelhantes a Cristo, a mudança ficará evidente para todas as pessoas sensatas
ao nosso redor, bem como para nós mesmos. Naturalmente, atitudes que definem o
discípulo não podem ser cumpridas hoje, como deixar a família e o trabalho para
seguir a Jesus em suas jornadas pelo campo. No entanto, o discipulado pode
concretizar-se hoje quando amamos os inimigos, abençoamos os que nos amaldiçoam,
andamos a segunda milha com um opressor, ou seja, quando praticarmos as
transformações interiores da fé, da esperança e do amor. Esses atos, realizados
por pessoas disciplinadas, que manifestam graça, paz e alegria, tomam o
discipulado não menos tangível e influente que os atos de renúncia de muito
tempo atrás. Qualquer pessoa que queira ingressar no Caminho constatará essa
realidade e provará que o discipulado está longe de ser desagradável.
6.
O custo do descomprometimento
Em 1957, Dietrich Bonhoeffer
publicou seu livro Discipulado, que
representa um ataque brutal contra o “cristianismo fácil” ou a “graça barata”,
mas não despreza - talvez até reforce - a Visão do discipulado como sacrifício
espiritual fora do comum, reservado apenas para os cristãos especialmente
propensos ou chamados para tal. Ele entende, corretamente, que não se pode ser
discípulo de Cristo sem sacrificar coisas que costumam ser procuradas na vida
humana, e quem contribui pouco, em termos materiais, para preservar seu nome
tem razões para duvidar de sua situação perante Deus. O custo do
descomprometimento, porém, é muito maior, mesmo tratando-se apenas da vida
terrena, que o preço pago para andar com Jesus.
O custo do descomprometimento é a
paz permanente, uma vida repleta de amor, fé que vê tudo na perspectiva do
domínio supremo de Deus para sempre, esperança que sobrevive aos momentos mais
aflitivos, força para fazer o que é certo e resistir ao poder do mal. Em resumo,
custa exatamente aquela abundância de vida que Jesus prometeu (João 10.10). O
jugo de Cristo na forma de cruz é, afinal, um instrumento de libertação e poder
para quem divide o jugo com Cristo e aprende a humildade e a singeleza de
coração, que trazem descanso à alma. A perspectiva correta é ver o seguir a
Cristo não apenas como necessidade, mas com o cumprimento das possibilidades
humanas mais nobres e como vida de alto nível.
Os onze discípulos foram para a Galiléia e chegaram ao monte que Jesus
tinha indicado.
E, quando viram Jesus, o adoraram; mas alguns tiveram suas dúvidas.
Então Jesus chegou perto deles e disse: — Deus me deu todo o poder no
céu e na terra.
Portanto, vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus
seguidores, batizando esses seguidores em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo
e ensinando-os a obedecer a tudo o que tenho ordenado a vocês. E
lembrem disto: eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos. Mateus
28.16-20

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