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sábado, 12 de janeiro de 2013

O Custo do descomprometimento


Texto de Dallas Willard, extraído de “Clássicos Devocionais” (Richard Foster e James Bryan Smith), Ed. Vida.

1.       Discipulado: somente para supercristãos?

                A palavra “discípulo” ocorre 269 vezes no Novo Testamento. “Cristão” aparece apenas três vezes, e a palavra foi usada pela primeira vez justamente para se referir aos discípulos. O Novo Testamento é um livro sobre discípulos, escrito por discípulos e destinado aos discípulos de Jesus Cristo.
Todavia, a questão não é simplesmente verbal. O que mais chama a atenção é que o modo de vida encontrado nas primeiras igrejas caracteriza-se por um tipo especial de pessoa. Todas as garantias e todos os benefícios oferecidos ao ser humano no evangelho pressupõem evidentemente esse tipo de vida e não parece fazer sentido fora dele. O discípulo de Jesus não é um modelo de cristão, como um automóvel de luxo ou um veículo robusto - almofadado, estofado, aerodinâmico e turbinado para andar na faixa expressa de ruas retas e estreitas. Ele está nas páginas do Novo Testamento como meio de transporte básico para o Reino de Deus.

2.        Os discípulos não discipulados

Por pelo menos várias décadas, as igrejas do Ocidente não fizeram do discipulado um requisito para ser cristão. Não se exige de alguém ser ou querer ser discípulo para tornar-se cristão, e é possível continuar sendo cristão sem nenhum sinal de progresso no discipulado. As igrejas contemporâneas, em especial, não exigem como condição para membresia seguir o exemplo, a atitude e os ensinos de Cristo – seja para ingresso, seja para permanência na comunhão da denominação ou da igreja local. Qualquer exceção reforça a validade do argumento e salienta a regra geral. No que diz respeito às instituições cristãs visíveis de nosso tempo, o discipulado é claramente opcional. As igrejas estão cheias de “discípulos não discipulados”, como denomina Jess Moody. A maioria dos problemas das igrejas contemporâneas explica-se pelo fato de os membros não terem decidido ainda seguir a Cristo.
Insistir em que Cristo seja considerado Senhor não resolve o problema. Apresentar o senhorio de Cristo como opção é considera-lo algo como a escolha de pneus de faixa branca ou de um equipamento de som para o carro novo. São opcionais. Além do mais - lamentavelmente - não esta clara sua utilidade. A obediência e o preparo para a obediência não estabelecem uma unidade doutrinária ou pratica inteligível com a salvação apresentada nas versões recentes do evangelho.

3.       Grandes omissões da Grande Comissão

 A Grande Comissão de Jesus para a Igreja institui um modelo diferente. O primeiro objetivo apresentado à igreja primitiva foi a utilização de seu poder e de autoridade abrangentes para fazer discípulos. Depois de se tornar discípulos, eles deveriam ser batizados no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Com essa dupla preparação, deveriam ser instruídos a guardar e observar “tudo o que eu lhes ordenei” (Atos 28.20). A igreja primitiva do primeiro século foi o resultado da execução desse plano de crescimento - um resultado difícil de superar.
 Entretanto, no lugar do plano de Cristo, os ventos históricos substituíram o discipulado por: “Façam convertidos (a uma fé ou prática específica) e batizem-nos para que se tornem membros da Igreja”. Isso reforça duas grandes omissões da Grande Comissão. O mais grave é que começamos omitindo o fazer discípulos ou recrutando pessoas como seguidores de Cristo, quando as demais coisas deveriam vir depois. Também omitimos a tarefa de instruir os convertidos no processo que os fara cumprir cada vez com mais acerto as orientações de Jesus.
 As duas grandes omissões estão interligadas. Sem transformar os convertidos em discípulos, e impossível ensina-los a Viver conforme Cristo viveu e ensinou. Isso não fazia parte do pacote, do motivo da conversão.    Quando confrontados com o exemplo e os ensinos de Cristo, a resposta dos cristãos de hoje caracteriza-se mais como perplexidade que como rebeldia ou rejeição: “Como podemos identificar-nos com isso? Que relação isso tem conosco?”.

4.       O discipulado naquela época

Quando Jesus viveu na terra, havia certa simplicidade em ser discípulo. Isso significava principalmente segui-lo em atitude de estudo, obediência e imitação. Não havia curso por correspondência. As pessoas sabiam o que fazer e qual o custo disso. Simão Pedro exclamou: “Nós deixamos tudo para seguir-te” (Marcos 10.28). Família e ocupações eram deixadas para trás por longos períodos para seguir a Jesus. Percorriam-se várias localidades para anunciar, mostrar e explicar o domínio de Deus. Os discípulos precisavam permanecer com Jesus para aprender a fazer o que ele fazia.
Imagine fazer isso hoje! Como os familiares, patrões e companheiros de trabalho reagiriam a esse abandono? Provavelmente, achariam que não damos muita importância a eles, ou mesmo a nós. Zebedeu pode ter pensado isso quando viu seus dois filhos deixarem o negócio da família para ficar com Jesus (Marcos 1.20). Pergunte a qualquer pai em situação semelhante. Então, quando Jesus observou que é preciso deixar as coisas mais preciosas – família, “tudo o que possui" e “sua própria vida” (Lucas 14) –, pois era necessário acompanha-lo, ele declarou algo simples: esse é o único caminho para o discipulado.

5.       Discipulado hoje

Apesar de caro, o discipulado tinha um significado bastante claro e direto. Hoje o mecanismo é diferente. Não podemos estar com Jesus literalmente da mesma forma que os primeiros discípulos estiveram. Contudo, as prioridades e intenções - o coração e as atitudes interiores do discípulo são sempre as mesmas. No coração do discípulo há um desejo, e há decisão e intenção claras. O discípulo de Cristo deseja acima de tudo ser semelhante a ele.
Por causa desse desejo, geralmente produzido pela vida e pelas palavras daqueles que já estão no Caminho, ainda e preciso tomar uma decisão: dedicar-se a ser como Cristo. O discípulo é aquele que, dedicado a tornar-se como Cristo e permanecer em sua “fé e pratica”, reorganiza sistemática e progressivamente sua vida com vistas a esse objetivo. Com essas ações, mesmo hoje, quem é recrutado para o treinamento de Cristo torna-se seu aluno ou discípulo.
Então, se desejamos ser semelhantes a Cristo, a mudança ficará evidente para todas as pessoas sensatas ao nosso redor, bem como para nós mesmos. Naturalmente, atitudes que definem o discípulo não podem ser cumpridas hoje, como deixar a família e o trabalho para seguir a Jesus em suas jornadas pelo campo. No entanto, o discipulado pode concretizar-se hoje quando amamos os inimigos, abençoamos os que nos amaldiçoam, andamos a segunda milha com um opressor, ou seja, quando praticarmos as transformações interiores da fé, da esperança e do amor. Esses atos, realizados por pessoas disciplinadas, que manifestam graça, paz e alegria, tomam o discipulado não menos tangível e influente que os atos de renúncia de muito tempo atrás. Qualquer pessoa que queira ingressar no Caminho constatará essa realidade e provará que o discipulado está longe de ser desagradável.

6.       O custo do descomprometimento

Em 1957, Dietrich Bonhoeffer publicou seu livro Discipulado, que representa um ataque brutal contra o “cristianismo fácil” ou a “graça barata”, mas não despreza - talvez até reforce - a Visão do discipulado como sacrifício espiritual fora do comum, reservado apenas para os cristãos especialmente propensos ou chamados para tal. Ele entende, corretamente, que não se pode ser discípulo de Cristo sem sacrificar coisas que costumam ser procuradas na vida humana, e quem contribui pouco, em termos materiais, para preservar seu nome tem razões para duvidar de sua situação perante Deus. O custo do descomprometimento, porém, é muito maior, mesmo tratando-se apenas da vida terrena, que o preço pago para andar com Jesus.
O custo do descomprometimento é a paz permanente, uma vida repleta de amor, fé que vê tudo na perspectiva do domínio supremo de Deus para sempre, esperança que sobrevive aos momentos mais aflitivos, força para fazer o que é certo e resistir ao poder do mal. Em resumo, custa exatamente aquela abundância de vida que Jesus prometeu (João 10.10). O jugo de Cristo na forma de cruz é, afinal, um instrumento de libertação e poder para quem divide o jugo com Cristo e aprende a humildade e a singeleza de coração, que trazem descanso à alma. A perspectiva correta é ver o seguir a Cristo não apenas como necessidade, mas com o cumprimento das possibilidades humanas mais nobres e como vida de alto nível.

Os onze discípulos foram para a Galiléia e chegaram ao monte que Jesus tinha indicado.

E, quando viram Jesus, o adoraram; mas alguns tiveram suas dúvidas.

Então Jesus chegou perto deles e disse: — Deus me deu todo o poder no céu e na terra.

Portanto, vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores, batizando esses seguidores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

e ensinando-os a obedecer a tudo o que tenho ordenado a vocês. E lembrem disto: eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos. Mateus 28.16-20

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