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domingo, 31 de janeiro de 2016

Dia 5 – Filipenses 2.5-11 – Seguindo o exemplo de Cristo, Parte 2



Texto: “Tentem pensar como Cristo Jesus pensava. Mesmo em condição de igualdade com Deus, Jesus nunca pensou em tirar proveito dessa condição, de modo algum. Quando sua hora chegou, ele deixou de lado os privilégios da divindade e assumiu a condição de escravo, tornando-se humano! E depois disso, permaneceu humano. Foi sua hora de humilhação. Ele não exigiu privilégios especiais, mas viveu uma vida abnegada  e obediente – e da pior forma: a crucificação.
Por causa  dessa obediência, Deus o exaltou e honrou muito acima e além de todos, para que todos os seres, no céu e na terra – até aqueles que há muito mortos e enterrados –, se curvem em adoração na presença de Jesus Cristo e proclamem, por meio do louvor, que ele é o Senhor de todos, para a gloriosa honra de Deus Pai.” Filipenses 2:5-11 – A mensagem

                A Cruz é o centro e símbolo da vida cristã. Dentre tantos elementos da vida de Jesus – a manjedoura, a carpintaria, a toalha, o fogo, a pomba ou mesmo o túmulo vazio – a Cruz sempre foi o destaque. Também pudera, grande parte dos evangelhos se dedicam aos momentos finais de Cristo, e mesmo nas cartas encontramos o apelo que Cruz possuía (1 Co 2.2; 1 Pe 3.18; 1 Jo 4.10). Mais admirável ainda deveria ter sido para o mundo romano na época este enfoque dado a uma forma tão barbara de execução, a ponto de Cícero declarar “Que até mesmo o nome da cruz mantenha distancia do cidadão romano, não apenas do corpo, mas até do pensamento, dos olhos e dos ouvidos”.
 Para Paulo esse era o exemplo a ser seguido e aqui ele cita o que muitos creem ser um hino antigo, provavelmente escrito em aramaico, que a igreja declarava na época, mas que hoje perdeu-se a forma e melodia. Seu sentido, porém, não deixa de ser marcante. Paulo pede que “A atitude de vocês” (NVI), ou seja, a conduta pessoal, a postura relacional, “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar” (NTLH) ou “Tende em vós o mesmo sentimento” (ARA). Fala-se aqui tanto na disposição mental, quando no funcionamento pratico. Cristo é o exemplo supremo, nossa vida deve partir do Seu ponto de vista.  

“Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus”. Aqui se declara que Jesus era verdadeiramente Deus antes de se tornar homem: “No principio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus.” (João 1.1). Sem deixar de ser Deus, Cristo se dispôs a por de lado a glória de ser igual a Deus, não era algo que devia apegar-se. Um paralelo interessante é feito com Adão. Convencido de que ao comerem do fruto proibido, se tornariam semelhantes a Deus, caiu em pecado e perdeu a graça e união divina. Cristo, ao contrario, se esvaziou: “De boa vontade, desistiu de sua semelhança com Deus, aparente, externa, e assumiu a forma de um escravo (...)  A mente de Cristo significa mais do que o modo de pensar de uma pessoa ; é o controle de sua vontade.” (SHEED,  2005). Conforme observamos nas próprias palavras de Cristo, antes de enfrentar a Cruz, seu prazer era cumprir a vontade do Pai e não seus desejos mais imediatos (Lucas 22.42). Essa foi a maior prova de amor que recebemos:
O valor de um presente de amor é medido pelo que ele custa ao doador e pelo quanto o presenteado merece. Um jovem apaixonado dá à sua amada presentes caros porque considera que ela os merece. Mas Deus, ao dar seu filho, deu a si mesmo para morrer por seus inimigos. Deu tudo àqueles que dele nada mereciam. E essa é a prova do amor de Deus para conosco. (...) a evidencia firme e segura da justiça e do amor de Deus, à luz da qual podemos aprender a viver e amar, servir, sofrer e morrer.  (STOTT, 2004)
                Perceba que Cristo assumiu sua forma humana, e se humilhou – o Rei de toda a terra! – a posição de servo, ou mais precisamente, escravo.  Como diz Lutero, Cristo sepultou  e ocultou sua majestade, sujeitou-se as fraquezas humanas e as necessidades da carne e do sangue. Mas a cruz não é o fim. A ressurreição foi a “vitória endossada, proclamada e demonstrada” (STOTT, 2004). Em consequência de sua humilhação, Jesus foi exaltado acima de todo o nome e de todos os seres, físicos ou espirituais, mortos ou vivos, que se prostrarão diante Dele! E tudo isso com o propósito de louvar ao Deus Pai. Em seu retorno triunfal, certamente todo joelho reconhecerá Cristo como senhor, mas temos hoje a oportunidade de nos prostrarmos em adoração, confessarmos seu senhorio e sermos coerdeiros com Ele (Rm 8.15-17) e nos alegrando com sua presença.         
O mesmo que se humilhou por nós e enfrentou o desprezo e a Cruz, nos ensina a seguir seu exemplo e tomar nossa cruz também (Mc 8.34-35). Servir não é algo fácil, envolve engolir o ego, tomar atitudes práticas, amar e ajudar aqueles que nem sempre perceberão ou serão gratos. Servir como Cristo é não buscar os holofotes para nós mesmos, mas para Deus. É abdicarmos de nossos tão números direitos em favor do outro.  Nas Palavras de Israel Belo de Azevedo:
A santidade inclui o silencio, mas precisa terminar no abraço ao outro. Quanto mais santo sou, mais eu amo o meu próximo. Ai, que dificuldade! Não seria melhor: quanto mais santo sou, mais eu amo a meu Deus? A imitação de Jesus se dá na prática. (...) Eis o que eu quero: que a graça vista a minha vontade com o caráter de Cristo, de modo que o conteúdo dos meus pensamentos vá sendo mudado, a disposição dos meus sentimentos, vá sendo alterada, a inclinação do meu corpo vá sendo dominada, a atmosfera social que vivo vá sendo resgatada.     

Referências:

AZEVEDO, Israel, Belo de. Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas tema por tema.  Editora Hagnos, 2014.
Carson , D. A.; France,  R. T.;  Motyer, J. A.; Wenham ,  G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. Vida Nova, 2009.
MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005. 
STOTT, John. Porque sou Cristão. Editora Ultimato, 2004.
TOMLIN, Graham (org.) Filipenses e Colossenses – Comentário Bíblico da Reforma. Editora Cultura Cristã. 2015.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Dia 4 – Filipenses 2.1-11 – Seguindo o exemplo de Cristo, Parte 1



Texto: “Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
Que, sendo em forma de Deus,
não teve por usurpação ser igual a Deus,
Mas esvaziou-se a si mesmo,
tomando a forma de servo,
 fazendo-se semelhante aos homens;
E, achado na forma de homem,
 humilhou-se a si mesmo,
sendo obediente até à morte,
 e morte de cruz.
Por isso, também Deus o exaltou soberanamente,
e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus,
 e na terra, e debaixo da terra,
E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,
 para glória de Deus Pai.” Filipenses 2:1-11


                Dando continuidade a sua exortação a unidade para igreja filipense, não podemos deixar de perguntar: seria isso realmente possível? Há tantas divisões e desentendimentos, tantas ideias divergentes, tanto egoísmo e desanimo... Como a Igreja permanecerá unida? A resposta está no Pai, no filho e no Espírito Santo.

Em Cristo recebemos motivação, ou exortação em outras linguagens. Esta expressão significa companhia orientadora de Cristo, ou seja, temos nosso salvador a nos guiar, ensinar a viver uma nova vida. Exortar anda junto com corrigir. Jesus nos exorta a humildade (como veremos nos versículos seguintes). Passamos a seguir seu exemplo, que se “esvaziou” de sua divindade e nos ensina a nos esvaziarmos de nós mesmos, de nossa soberba, desejos impróprios, autoconfiança exagerada, comportamentos errados, etc.  Sabemos que o triunfo está em Cristo e nele obtemos a vitória (Fl. 2.10-11), precisamos assim andar em sua exortação, confiando em Sua Palavra: “Eis que estou convosco  todos os dias até a consumação do século.” (Mt. 28.20) 

“se há alguma consolação em amor”, que amor é este de que Paulo trata? Este é o amor divino, ágape, sem restrições. O sentido aqui está ligado ao encorajamento que “retrata chegar ao lado de alguém e tomar a mão da pessoa. O amor faz isso: dá ao cristão que sofre de letargia, um impulso para frente” (SHEED, 2005). Não esqueçamos que o verdadeiro amor vem de Deus, Ele é o próprio amor, e todo aquele que ama procede de Deus (1 Jo 3 e 4).  Se há falta de amor, é preciso uma renovação espiritual, pois o amor de Cristo deve alcançar até mesmo os inimigos. 

A comunhão é alimentada pelo Espírito Santo. Ele nos identifica como membros de uma mesma família de forma que clamamos Aba, Pai. Quando o Espírito age em nós, ”somos capazes de nutris afetos e compaixões e comportamento próprio” (AZEVEDO, 2014). É interessante o termo “entranháveis afetos e compaixões”, o termo grego splanchna significa literalmente entranhas humanas, que eram consideradas a cede da vida emocional. Aqui ainda se fala de amor mutuo, mas de um tipo intensamente pessoal, de forma que nossas atitudes para com o outro não sejam algo forçado, mas natural, com simpatia.
Somos campeões de misericórdia forçada, talvez por ouvirmos o mandamento de Jesus de Jesus nesse sentido. No entanto, nosso afeto deve decorrer do fato  de que temos a mente de Cristo, de que estamos em Cristo. Não é um sorriso para mostrar que amamos, mas um sorriso porque amamos. Não é um abraço para parecermos afetuosos, mas um abraço prazeroso de amor e interesse pelo outro. (AZEVEDO, 2014)
                E este é só o principio. Paulo pede que completem, ou seja transbordem, seu contentamento ao sentirem a mesma coisa, terem o mesmo animo e considerarem o outro superiores a si mesmo. MARTIN (1985) chama a atenção ao termo “de modo que penseis a mesma coisa” ou “sentindo uma mesma coisa”, termos grego phronei (também em 1.7), verbo que aparece cerca de 10 vezes só nesta epistola – e 13 em outras cartas – que significa (recapitulando) “uma combinação de atividades intelectuais e efetivas, que toca tanto a mente como o coração, e conduz a uma ação positiva”. O fato de buscarem uma só mente e um só coração enfatiza a busca da vida de comunhão comum na Igreja.  
                Paulo usa um termo que pode ter criado, um neologismo, “almar-se juntos”, referindo-se a uma espécie de unidade na qual duas personalidades se unem em uma só (SHEED, 2005). Observe quem que nada deveria ser feito com contenda ou vanglória. Tudo deve ser marcado por unidade e pelo exemplo de Cristo. João Calvino nos ensina que a “vanglória encanta a mente dos homens, de modo que todos ficam lisonjeados com suas próprias invenções”. Assim, não se deve atentar para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. Consideramos os outros superiores, e isso não quer dizer que devemos andar com complexo de inferioridade, mas sim que devemos fazer uma avaliação correta dos dons de Deus e de nossas fraquezas. Nas palavras de Calvino:
  Pois por mais que alguém possa ser distinguido por talentos ilustres, deve lembrar que eles não lhe foram concedidos para que fosse autocomplacente, para que pudesse se exaltar ou para que pudesse estimar a si mesmo. Em vez disso, essa pessoa deve usar isso para examinar e corrigir as faltas e, assim, terá abundantes oportunidades para a humildade. Mas, em outros, a tudo o que é elogiável, eles atribuirão honra e, por meio do amor, sepultarão faltas. Quem observar essa regra não terá dificuldades em considerar os outros superiores a si mesmo.

Referências:

MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005. 
TOMLIN, Graham (org.) Filipenses e Colossenses – Comentário Bíblico da Reforma. Editora Cultura Cristã. 2015.

   

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Dia 3 – Filipenses 2.18-30 – Em Cristo, na vida e na morte



Texto: Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda. Porque sei que disto me resultará salvação, pela vossa oração e pelo socorro do Espírito de Jesus Cristo, Segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne. E, tendo esta confiança, sei que ficarei, e permanecerei com todos vós para proveito vosso e gozo da fé, Para que a vossa glória cresça por mim em Cristo Jesus, pela minha nova ida a vós. Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho. E em nada vos espanteis dos que resistem, o que para eles, na verdade, é indício de perdição, mas para vós de salvação, e isto de Deus. Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele, Tendo o mesmo combate que já em mim tendes visto e agora ouvis estar em mim. Filipenses 1:18-30



                O Coliseu foi eleito em 2007 como uma das 7 maravilhas do mundo moderno. Utilizado para entreter os romanos com espetáculos por mais de 400 anos, seu uso e visitação não perdeu importância com as décadas. Planejado pelo imperador Augusto, passaram-se sete imperadores até o começo de sua construção por Vespasiano – que faleceu antes que a obra fosse terminada. Sua edificação foi dedicada a Tito, no ano 80 de nossa era, mas a construção não foi completada até o reinado de Domiciano. O poderoso anfiteatro tinha capacidade para 50.000 pessoas e possuía 48 metros de altura. Por fora, era incrustado de mármore e decorado com estátuas
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Entre as atrações, batalhas entre gladiadores, peças teatrais – inclusive encenação de batalhas navais, onde o lugar era inundado com água para maior realismo – luta entre homens e animais e a execução de cristãos. Muitas histórias ficaram marcadas no anfiteatro, algumas com tons fantasiosos típicos do pensamento medieval (até que ponto é verdade, só conheceremos no céu), mas os pontos em comum não negam a realidade: cristãos fieis que preferiam seguir a Cristo e morrer cercado por feras, queimados, mutilados ou simplesmente torturados com os mais cruéis inventos da época. Dentre os relatos, um interessante foi o mártir Inácio, apontado como discípulo de Pedro e João, que ao ouvir sua sentença de morte, teria declarado: “Oh, Senhor, agradeço-te haver-me honrado com o mais precioso sinal da tua caridade, e permitido que eu seja acorrentado por teu amor, como foi o apóstolo Paulo. ” (O’REILLY, 2005)

                A morte sempre foi temida e odiada. Para os cristãos é o último inimigo a ser vencido (Ap. 20). Se fosse perguntado “Aonde iremos, após a morte?”, muitas respostas poderiam ser ouvidas, mas para um cristão da Igreja primitiva, a resposta era certa: céu. Neste trecho, Paulo não fala como alguém depressivo e sem razão para viver – ele fazia planos caso fosse liberto, mas seu maior desejo era estar com o Rei. Paulo era um homem em amor pelo Messias, de quem declara que “me amou e se deu por mim.” (Gl. 2.20). Para Paulo, a morte representava estar completo com Cristo. Gosto do comentário de João Calvino sobre este trecho, quando diz que Paulo não considera exatamente morrer um lucro, mas sim deseja estar com Cristo em qualquer situação, vivo ou morto. Se vivo, continuará a lutar pelo evangelho e já faz planos para visitar os Filipenses, e frutificará em Cristo. Se morto, estará na eternidade com eu Rei. Paulo olhava para o futuro não em busca do que seria melhor para si, mas daquilo que glorificaria a Cristo e beneficiaria a Igreja:

É melhor estar em qualquer lugar com Cristo do que no céu sem ele. Todas as deliciam sem Cristo são apensas um banquete num funeral. Onde o dono da festa não está, não há nada, apenas uma solenidade (...)
O verdadeiro amor é direcionado à pessoa. O amor que ama uma coisa ou um presente, mas que uma pessoa é um amor adultero. Paulo amava a pessoa de Cristo porque sentia a doce experiência  de que Cristo o amava; seu amor era apenas um reflexo do primeiro amor de Cristo. Ele amava ver Cristo, abraça-lo e desfrutar daquele que tinha feito tanto e sofrido por tantos pela sua alma (...). Estar com Cristo é estar na fonte de toda felicidade. É estar em nosso próprio elemento. Toda criatura se sente melhor em seu próprio elemento, isto é , seu próprio ambiente, o lugar onde floresce e desfruta da sua felicidade; e Cristo é o elemento do Cristão.  (Richard Sibbes)

                A situação também não era fácil para a Igreja em Filipos, e diante disso, Paulo recomenda coragem e unidade em face a perseguição. Em uma visão realista da luta contra os poderes hostis, os versículos 27-30 são ricos em termos militares: estais firmes (resolutos como soltados plantados em seus postos), lutando (associa-se com a campanha militar, em batalha, ou arena, onde gladiadores travavam batalhas de vida ou morte), pelos adversários (humanos ou demoníacos), o mesmo combate – como Paulo havia encarado em sua primeira visita (MARTIN, 1985).      
       
O desafio então era ficarem firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé no evangelho. Os cristãos não se unem por pertencerem a uma mesma nação, por falarem a mesma língua ou terem a mesma aparência ou cultura. A união cristã está embasada no fato de termos um só Espirito, um só batismo, um só corpo e um só Deus (Ef. 4.5). Muitas vezes deixamos isso de lado por motivos mesquinhos, e indignos de nossa cidadania celestial em comum ou invés de cultivar a unidade passamos a promover a fragmentação e a divisão. Paulo receita justamente lutarmos pela mesma fé. Essa luta trás a ideia de dispensar todos os esforços na causa e essa batalha não se realiza isoladamente. 

Por fim, Paulo relembra que mesmo o sofrer ou padecer por amor a Cristo é uma dádiva. Uma verdadeira inversão de valores ocorre aqui, pois o que o mundo considera como opróbrio, para o cristão é motivo de alegria. Assim como Pedro e João se regozijaram após serem espancados pelo nome de Cristo – sequer consideravam dignos nisso, Paulo os lembra de que somente pela fé que vem pela graça, pode o sofrimento ser considerado um privilegio (MARTIN, 1985).   
               
Referências:

MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
O’REILLY, A. J. Os mártires do Coliseu, Editora CPAD, 2005.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005. 
TOMLIN, Graham (org.) Filipenses e Colossenses – Comentário Bíblico da Reforma. Editora Cultura Cristã. 2015.
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Dia 2 – Filipenses 1.12-18a – O progresso do evangelho



Texto: “Quero que saibam, irmãos, que aquilo que me aconteceu tem antes servido para o progresso do evangelho. Como resultado, tornou-se evidente a toda a guarda do palácio e a todos os demais que estou na prisão por causa de Cristo. E a maioria dos irmãos, motivados no Senhor pela minha prisão, estão anunciando a palavra com maior determinação e destemor. É verdade que alguns pregam a Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade. Estes o fazem por amor, sabendo que aqui me encontro para a defesa do evangelho. Aqueles pregam a Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade, pensando que me podem causar sofrimento enquanto estou preso. Mas, que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro.” Filipenses 1:12-18a
 


                Nem sempre percebemos o agir de Deus em nossas vidas cotidianas. Jose é um exemplo contrário. Movidos por ódio e inveja, seus irmãos o venderam a mercadores. Tornou-se escravo no Egito, onde foi falsamente acusado de tentar molestar a mulher de Potifar. Preso, solucionou o sonho do padeiro e do copeiro do faraó, para ser esquecido até momento oportuno. Já como segundo do faraó, reencontra e testa o estado do coração dos irmãos. Em um dos momentos mais belos da Bíblia, entre lagrimas e sorrisos, a família se abraça e reconcilia. Porém, quando o patriarca Jacó vem a falecer, duvidas tomam conta do coração dos irmãos, “Agora José se vingara de tudo que fizemos!”. Diante disso ouvem a resposta de José: “Não tenham medo. Estaria eu no lugar de Deus? Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos.” (Gênesis 50.18-19). E assim ele os tranquilizou e cuidou de suas famílias. José havia percebido que toda sua vida fora conduzida por Deus para o proposito de abençoar sua própria família e de muitas outras. 

                Isso não é raro na Bíblia e na história do povo de Deus.  Ester pôde perceber que para aquele momento, onde Hamã tentava eliminar os judeus, ela havia sido escolhida como esposa do rei. Da mesma forma, a igreja primitiva pode não ter percebido a principio o porquê das dificuldades e perseguições enfrentadas em Jerusalém, apesar dos muitos alertas de Jesus, mas através da perseguição a Igreja alcançou todo o mundo conhecido na época. Assim, Paulo, não analisando ao fim de sua vida, mas no decorrer dos acontecimentos, percebe que sua prisão era algo que Deus estava usando para propagar o evangelho. Aqui, Paulo não somente conta quais as circunstâncias em se encontra, mas também como as entende, como reage as mesmas.  Nossa atitude, e não nossas circunstancias, determina quem somos e como encaramos a vida (passado, presente e futuro) e Paulo tinha seus olhos somente em Cristo. João Calvino explicita isso bem:

Que visão terrível! Se víssemos apenas a crueldade e a fúria de nossos perseguidores, isso despedaçaria nossas esperanças. Quando, porém, vemos, ao mesmo tempo, a mão do Senhor, que toma seu povo invencível sob a fraqueza da cruz e o faz triunfar, devemos nos empenhar mais ousadamente do que de costume, confiando nisso, pois já temos, em nossos irmãos, o penhor da vitória. O conhecimento disso deve vencer nossos temores, para que possamos falar ousadamente em meio a perigos.    

                O apóstolo já havia sofrido muito por amor a Cristo e a mensagem do evangelho. Espancado, preso, injustiçado, recebeu chibatadas, passou por naufrágios e tentativas de assassinatos contra sua vida. Diante de tudo isso, Paulo entendia que todas as coisas cooperavam para o bem dos que amam a Deus e andam segundo seus propósitos (Rm 8.28). Não que ele fosse sobre-humano, ou gostasse de ser torturado, mas ele percebia como aquilo afetava na propagação do reino de Cristo. Muitos talvez afirmassem que o evangelho estava em perigo, ou que seu sofrimento o desqualificava como apostolo. Paulo rebate isso e explica o porquê destas situações.

                O termo traduzido por progresso significa, mais especificamente “avanço a despeito de obstruções e perigos que bloqueiam o caminho do viajante”. Russell Shedd explica que esse é “um termo militar, que retrata trabalhadores com manchetes e machados abrindo caminho através da mata, a fim de preparar passagem para o exército” (SHEDD, 2005), assim, é como se Paulo dissesse que já esteve ali, na frente, mas que louva a Deus por que nosso exercito continua a avançar e o evangelho já é conhecido mesmo por toda a guarda pretoriana. 

Como pode a perseguição dos santos promover o evangelho? Herry Airay nos responde bem:
(1) Pelo poder de Cristo. (2) Pelo exemplo da constância dos santos em seus sofrimentos. (3) Pela liberdade do evangelho até mesmo quando os santos são presos por causa dele.

                 Paulo percebeu, então, duas classes de pessoas. Havia aquelas que pregavam com sinceridade, e ainda com mais ousadia, estimulados ao saberem de sua prisão, passando a seguir seu exemplo. Outros já o faziam por motivos indignos, por inveja, discórdia e rivalidade. Estes opositores são geralmente apontados como pessoas que pregavam contra o que Paulo dizia, como a necessidade de praticas judaicas, como a circuncisão, por exemplo, para conseguir a salvação – ou mesmo agitadores que queriam causar mais problemas a Paulo na prisão. No entanto, concordo com Paul Wright quando afirma ser mais possível que pagãos normais que ouviram sobre a situação e confusão gerada pela prisão de Paulo e que o estavam propagando boca a boca pelas ruas: “Já ouviu falar sobre isso? Ele foi preso pregando sobre um novo rei, um novo imperador! Um rei judeu crucificado anos atrás! Os guardas de sua cela ouviram-no dizer que este rei ressuscitou, está vivo e voltará... que Ele é o verdadeiro Senhor do mundo! ”. Isso despertaria  interesse por Paulo e por sua mensagem. Assim, a reação de Paulo era de celebração, pois de uma maneira ou de outra, Cristo estava sendo pregado como Rei e Senhor!

         Facilmente podemos nos sentir desencorajados com as situações adversas na vida.  Porém, podemos aprender com Paulo, que ao focarmos em Cristo, vemos seu agir, nem sempre compreensível de imediato, mas sempre eficaz. 

Referências:

MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005. 
TOMLIN, Graham (org.) Filipenses e Colossenses – Comentário Bíblico da Reforma. Editora Cultura Cristã. 2015.
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.