Texto: “Tentem pensar como
Cristo Jesus pensava. Mesmo em condição de igualdade com Deus, Jesus nunca
pensou em tirar proveito dessa condição, de modo algum. Quando sua hora chegou,
ele deixou de lado os privilégios da divindade e assumiu a condição de escravo,
tornando-se humano! E depois disso,
permaneceu humano. Foi sua hora de humilhação. Ele não exigiu privilégios
especiais, mas viveu uma vida abnegada e
obediente – e da pior forma: a crucificação.
Por causa
dessa obediência, Deus o exaltou e honrou muito acima e além de todos,
para que todos os seres, no céu e na terra – até aqueles que há muito mortos e
enterrados –, se curvem em adoração na presença de Jesus Cristo e proclamem,
por meio do louvor, que ele é o Senhor de todos, para a gloriosa honra de Deus
Pai.” Filipenses 2:5-11 – A mensagem
A Cruz é o centro e símbolo da
vida cristã. Dentre tantos elementos da vida de Jesus – a manjedoura, a
carpintaria, a toalha, o fogo, a pomba ou mesmo o túmulo vazio – a Cruz sempre
foi o destaque. Também pudera, grande parte dos evangelhos se dedicam aos
momentos finais de Cristo, e mesmo nas cartas encontramos o apelo que Cruz
possuía (1 Co 2.2; 1 Pe 3.18; 1 Jo 4.10). Mais admirável ainda deveria ter sido
para o mundo romano na época este enfoque dado a uma forma tão barbara de
execução, a ponto de Cícero declarar “Que até mesmo o nome da cruz mantenha
distancia do cidadão romano, não apenas do corpo, mas até do pensamento, dos
olhos e dos ouvidos”.
Para Paulo esse era o exemplo a
ser seguido e aqui ele cita o que muitos creem ser um hino antigo,
provavelmente escrito em aramaico, que a igreja declarava na época, mas que
hoje perdeu-se a forma e melodia. Seu sentido, porém, não deixa de ser
marcante. Paulo pede que “A atitude de vocês” (NVI), ou seja, a conduta
pessoal, a postura relacional, “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar”
(NTLH) ou “Tende em vós o mesmo sentimento” (ARA). Fala-se aqui tanto na
disposição mental, quando no funcionamento pratico. Cristo é o exemplo supremo,
nossa vida deve partir do Seu ponto de vista.
“Que, sendo em forma de Deus, não teve por
usurpação ser igual a Deus”. Aqui se declara que Jesus era verdadeiramente Deus
antes de se tornar homem: “No principio era aquele que é a Palavra. Ele estava
com Deus, e era Deus.” (João 1.1). Sem deixar de ser Deus, Cristo se dispôs a
por de lado a glória de ser igual a Deus, não era algo que devia apegar-se. Um paralelo interessante é feito com
Adão. Convencido de que ao comerem do fruto proibido, se tornariam semelhantes
a Deus, caiu em pecado e perdeu a graça e união divina. Cristo, ao contrario,
se esvaziou: “De boa vontade, desistiu de sua semelhança com Deus, aparente,
externa, e assumiu a forma de um escravo (...) A mente de Cristo significa mais do que o modo
de pensar de uma pessoa ; é o controle de sua vontade.” (SHEED, 2005). Conforme observamos nas próprias
palavras de Cristo, antes de enfrentar a Cruz, seu prazer era cumprir a vontade
do Pai e não seus desejos mais imediatos (Lucas 22.42). Essa foi a maior prova
de amor que recebemos:
O valor de um presente de amor é
medido pelo que ele custa ao doador e pelo quanto o presenteado merece. Um
jovem apaixonado dá à sua amada presentes caros porque considera que ela os
merece. Mas Deus, ao dar seu filho, deu a si mesmo para morrer por seus
inimigos. Deu tudo àqueles que dele nada mereciam. E essa é a prova do amor de
Deus para conosco. (...) a evidencia firme e segura da justiça e do amor de
Deus, à luz da qual podemos aprender a viver e amar, servir, sofrer e morrer. (STOTT, 2004)
Perceba que Cristo assumiu sua
forma humana, e se humilhou – o Rei de toda a terra! – a posição de servo, ou
mais precisamente, escravo. Como diz
Lutero, Cristo sepultou e ocultou sua
majestade, sujeitou-se as fraquezas humanas e as necessidades da carne e do
sangue. Mas a cruz não é o fim. A ressurreição foi a “vitória endossada, proclamada
e demonstrada” (STOTT, 2004). Em consequência de sua humilhação, Jesus foi
exaltado acima de todo o nome e de todos os seres, físicos ou espirituais,
mortos ou vivos, que se prostrarão diante Dele! E tudo isso com o propósito de
louvar ao Deus Pai. Em seu retorno triunfal, certamente todo joelho reconhecerá
Cristo como senhor, mas temos hoje a oportunidade de nos prostrarmos em
adoração, confessarmos seu senhorio e sermos coerdeiros com Ele (Rm 8.15-17) e
nos alegrando com sua presença.
O mesmo que se humilhou por nós e enfrentou o desprezo e a Cruz, nos
ensina a seguir seu exemplo e tomar nossa cruz também (Mc 8.34-35). Servir não
é algo fácil, envolve engolir o ego, tomar atitudes práticas, amar e ajudar
aqueles que nem sempre perceberão ou serão gratos. Servir como Cristo é não buscar
os holofotes para nós mesmos, mas para Deus. É abdicarmos de nossos tão números
direitos em favor do outro. Nas Palavras
de Israel Belo de Azevedo:
A santidade inclui o silencio,
mas precisa terminar no abraço ao outro. Quanto mais santo sou, mais eu amo o
meu próximo. Ai, que dificuldade! Não seria melhor: quanto mais santo sou, mais
eu amo a meu Deus? A imitação de Jesus se dá na prática. (...) Eis o que eu
quero: que a graça vista a minha vontade com o caráter de Cristo, de modo que o
conteúdo dos meus pensamentos vá sendo mudado, a disposição dos meus
sentimentos, vá sendo alterada, a inclinação do meu corpo vá sendo dominada, a
atmosfera social que vivo vá sendo resgatada.
Referências:
AZEVEDO, Israel, Belo de.
Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom
comentadas tema por tema. Editora
Hagnos, 2014.
Carson , D.
A.; France, R. T.;
Motyer, J. A.; Wenham , G. J. Comentário
Bíblico Vida Nova. Vida Nova, 2009.
MARTIN, Ralph P. Filipenses
– Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
STOTT,
John. Porque sou Cristão.
Editora Ultimato, 2004.
TOMLIN,
Graham (org.) Filipenses e
Colossenses – Comentário Bíblico da Reforma. Editora Cultura Cristã. 2015.
