Trecho extraído do livro “Discipulado” de Dietrich Bonhoeffer, Editora
Sinodal.
“E, quando orardes, não sereis como os hipócritas;
porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem
vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu,
porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai,
que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando,
não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu
muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o
vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.” (Mt 6.5-8).
Jesus ensina
os discípulos a orar. Sem dúvida, a oração é uma necessidade natural do coração
humano, mas isso ainda não lhe empresta validade perante Deus. Mesmo quando
praticada com disciplina e experiência, pode ser estéril e sem promessa. Os
discípulos podem orar porque Jesus o diz a eles, ele que conhece o Pai. Dá-lhes
a promissão de serem ouvidos por Deus. Assim os discípulos oram unicamente
porque estão em comunhão com Jesus, em seu discipulado. Quem, no discipulado,
está em comunhão com Jesus tem por ele acesso ao Pai. Assim, toda oração
verdadeira é oração mediada. Nem mesmo na oração há acesso imediato ao Pai.
Somente por meio de Jesus Cristo podemos, na oração, encontrar o Pai. O
pressuposto para orar é a fé, a comunhão com Cristo. Ele é o único mediador de
nossa oração. Oramos com base em sua palavra. Assim nossa oração será sempre
oração vinculada à sua palavra.
Oramos a Deus
no qual cremos por Cristo. Por isso, a oração jamais será uma conjuração de
Deus; não nos precisamos mais apresentar diante dele. Podemos confiar que ele
sabe do que necessitamos antes que o peçamos. É isso que dá à oração confiança
e alegre certeza. Não a fórmula, nem o número de palavras, e sim a fé tange o
coração paterno de Deus, que há muito nos conhece.
A oração
verdadeira não é uma obra, um exercício, uma atitude piedosa, mas simplesmente
o pedido do filho ao coração do Pai. Por isso, uma oração jamais é
demonstrativa nem perante Deus, nem perante nós mesmos, nem perante terceiros.
Se Deus já não soubesse do que necessito, eu teria de ficar refletindo sobre como dizê-lo a Deus, o que
dizer e até mesmo se vou
dizê-lo a ele. Mas a fé na qual oro exclui qualquer reflexão, exclui qualquer
demonstração.
A oração é o
secreto absoluto. É totalmente oposta à publicidade. Quem ora já não conhece a
si mesmo, mas somente a Deus a quem invoca. Como a oração não influi sobre o
mundo, mas é dirigida unicamente a Deus, ela é a ação antidemonstrativa por
excelência.
Entretanto,
existe também a oração transformada na demonstração que revela o que está em
secreto. Isto acontece não somente na oração pública que se transforma em
palavreado. Tal fato será raro em nossos dias. Mas não há diferença, ao
contrário, é bem mais pernicioso se me transformo eu mesmo em espectador de
minha oração, quando oro diante de mim mesmo, seja desfrutando este estado como
espectador satisfeito, seja surpreendendo a mim mesmo espantado ou envergonhado
neste estado. A publicidade de rua não passa de uma forma mais ingênua da
publicidade que eu mesmo me preparo. Também no recolhimento do quarto posso
encenar-me uma vistosa demonstração. Até esse ponto é possível distorcer a
palavra de Jesus! A publicidade que procuro consiste então no seguinte: eu sou
o que ora e o espectador ao mesmo tempo. Sou meu próprio espectador, eu me ouço
a mim mesmo. Por não querer esperar até que Deus me ouça, por não querer que,
algum dia, Deus me revele que me ouviu, cuido eu mesmo do atendimento de minha
oração. Constato que orei piedosamente, e nesta constatação consiste a
satisfação do atendimento. Minha oração foi atendida. Já tenho a recompensa.
Porque atendi a mim mesmo, Deus já não me atenderá; porque eu mesmo preparei a
recompensa da publicidade, Deus já não me recompensará.
O que é o
quarto a que Jesus se refere, se não estou seguro nem diante de mim mesmo? Como
fecha-lo de tal forma que nenhum espectador venha perturbar o segredo da
oração, levando-me a recompensa da oração em secreto? Como proteger-me contra
mim mesmo, contra a tentação da reflexão? Como matar a reflexão pela reflexão?
Está aí a palavra: a vontade própria de impor-se através da oração precisa
morrer. Quando a vontade de Jesus reina exclusivamente em mim, e toda a minha
vontade se resume na dele, na comunhão com Jesus, no discipulado, então morre a
vontade própria. Posso então orar que se faça a vontade daquele que sabe do que
necessito antes que eu o peça. Minha oração só será certeira, forte e pura
quando emanar da vontade de Jesus. Então orar será realmente pedir. O filho
pede ao pai, o qual conhece. Não a adoração geral, mas a prece é a essência da
oração cristã. Isso corresponde à atitude do ser humano perante Deus, pedindo de
mão estendida àquele que ele sabe ter um coração paternal.
A verdadeira
oração é assunto secreto; isso não exclui, todavia, a comunhão de oração, mesmo
conhecendo os perigos que esta encerra. A publicidade de rua e o quartinho,
orações longas ou curtas, seja na litania da oração da Igreja, seja o suspiro
de oração de quem não sabe o que orar, o indivíduo ou a congregação, nada disso
é decisivo. O que importa unicamente é o reconhecimento: seu Pai sabe do que
vocês necessitam. Isso orienta a oração exclusivamente para Deus. Isso livra o
discípulo da hipocrisia das obras.

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