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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Dia 10 – Filipenses 4.10-23 – Contentamento e Generosidade




Texto: “Ora, muito me regozijei no Senhor por finalmente reviver a vossa lembrança de mim; pois já vos tínheis lembrado, mas não tínheis tido oportunidade. Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece. Todavia fizestes bem em tomar parte na minha aflição. E bem sabeis também, ó filipenses, que, no princípio do evangelho, quando parti da macedônia, nenhuma igreja comunicou comigo com respeito a dar e a receber, senão vós somente; Porque também uma e outra vez me mandastes o necessário a tessalônica. Não que procure dádivas, mas procuro o fruto que cresça para a vossa conta. Mas bastante tenho recebido, e tenho abundância. Cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que da vossa parte me foi enviado, como cheiro de suavidade e sacrifício agradável e aprazível a Deus. O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus. Ora, a nosso Deus e Pai seja dada glória para todo o sempre. Amém. Saudai a todos os santos em Cristo Jesus. Os irmãos que estão comigo vos saúdam. Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com vós todos. Amém.” Filipenses 4:10-23



            Um dado preocupante. Recentemente olhando algumas estatísticas, descobri que a cada 100 reais recebidos em dízimos e ofertas, cerca de 5 vão para missões, e destes 5, somente cinco centavos vão para investimentos em países pouco evangelizados. Não há toa um amigo missionário compartilhou uma piada: 

Conseguir aquele horário na TV: R$ 4 milhões.
Adquirir um sitio para lazer: R$ 500.000
Construção de um grande templo: R$ 10 milhões
Mas para enviar um missionário ao campo: Não tem dinheiro!
                Seria engraçada, caso não fosse triste. Gastam-se mais atualmente no Brasil no embelezamento de templos do que cumprindo da Grande Comissão. E isso se reflete em todas as áreas da vida. Cada vez mais fluem na igreja pessoas que procuram sua felicidade pessoal, a despeito do que isso possa significar para outras pessoas ou mesmo para Deus. Cuidado com o pobre, o órfão e a viúva? Coisa de filantropo ou comunista (aparentemente o cuidado com a criação passa a seguir uma postura política na mente de alguns). É uma triste distorção daquilo que se praticava na Igreja primitiva, onde não se havia necessidades entre seus membros, pois, com graça e alegria, a união do corpo socorria naquilo que faltava.
                Paulo termina a carta aos filipenses agradecendo a lembrança e a oferta enviada pela igreja. Aparentemente houve outras tentativas de dar suporte ao apóstolo e que não foram bem sucedidas, mas são relembradas aqui outras ocasiões em que Paulo foi socorrido. Chama-se atenção que Paulo não tinha costume de pedir ofertas ou sustento, pois buscava ele mesmo sustento para si e outros através de seu trabalho de fazer tendas. Seu objetivo era nunca ser um peso para a igreja. Preso, não tinha como trabalhar e lhe dar com as necessidades de alimento, roupas, etc. Mas observe que, não importando as circunstâncias, ele chama atenção do ato da igreja e não para si. Paulo dependia de Deus, aquilo que ensinava era aquilo que vivia, e aprendeu o segredo do contentamento, confiar em Deus em todo e qualquer momento. Em um paralelismo poético e dinâmico, Ralph Martin (1985) organiza assim suas colocações:
a)    Tanto sei estar humilhado
b)    Como também ser honrado;
c)    De tudo e em todas as circunstâncias já tenho experiência,

a)    Tanto na fartura, como na fome;
b)    Assim de abundância, como de escassez;
c)    Tudo posso naquele que me fortalece. 

Diferente dos filósofos e estoicos da época, o segredo de Paulo para se adaptar a toda situação não era forças que tirava de si mesmo, mas aquele que o fortalecia, Deus. Tudo quer dizer realmente “todas as coisas”, posso fala de suportar, aguentar; naquele que me fortalece, fala de dunamis, do poder, do milagre que vem de Deus. Perceba que o verbo está no presente. A graça e confiança no agir de Deus era algo cotidiano. Apesar disso, Paulo se alegria com as igrejas na Grécia, e principalmente com Filipos, pois foi a única a se interessar no dar e receber.   
Costumamos ouvir as palavras de Jesus de que mais bem aventurado é dar do que receber (At 20.25), mas raramente agimos com isso em mente. Mesmo quando presenteamos, esperamos algo em troca, mesmo abastados, deixamos de socorrer o necessitado (Lc 12.20,21 e 1 Jo 3.17). Precisamos aprender com a Igreja de filipenses a ser bons despenseiros das dádivas recebidas. Muitos estudiosos acreditam que a igreja em Filipos passava por problemas, incluído financeiros, o que não os impediu de suprir as necessidades do apóstolo a ponto de este declarar que recebeu em abundância.
        Chama-se atenção para o uso do temo reviver, v. 10, que relembra uma planta que renasce na primavera, trazendo beleza, perfume e alegria; e dos termos bancários utilizados por Paulo nos versos seguintes – todas as bênçãos seriam para credito da igreja, e aquilo seria recebido por Deus como sacrifício agradável. Sheed (2005) aponta oportunamente que “Ofertas de bens, impulsionadas pela graça de Deus (2Co 8.1) e compaixão pelos irmãos necessitados tributam graças a Deus (2Co 9.11) e acrescentam “glória ao próprio Senhor” (2Co 8.19).” Lembre que Deus ama ao que dá com alegria (2 Co 9.7)! Diante disso, Paulo abençoa a Igreja com uma promessa, condicional, para os doadores. Uma promessa do que Deus faz em retribuição pelo gesto de entrega.
Meu Deus destaca a pessoalidade do Senhor. Paulo sabia por experiência própria que Deus lhe ajudava em todas as necessidades. Suprirá está na forma ativa, lembremos que Deus é aquele que sustem o universo (Sl 78.20 e 2Co 9.10). Necessidades é um tempo a ser pensado e repensado em um mundo em que se inventam coisas descartáveis e lhes nomeiam como essenciais. Como saber o que é o necessário? Israel Belo de Azevedo (2014) responde bem:
 Deus nos supre as necessidades que ele considera como necessidades. Nós confundimos desejos com necessidades; ele, não. Deus então, supre as necessidades que passam pelo seu crivo. Ele sabe do que precisamos, sem o qual não podemos viver e nos supre. Segundo aprendemos na Bíblia, Os leões podem passar necessidade e fome, mas os que buscam o Senhor de nada têm falta (Sl 34.10). Por isso, aproximamo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento de necessidade (Hb 4.16).
                E Deus nos supre ricamente de acordo com suas riquezas em glória. Sheed e Azevedo apresentam exemplos semelhantes para entendermos isso. Imagine que você pede uma doação a um homem muito rico, riquíssimo, e ele lhe entrega somente  dois reais. Este homem deu DAS suas riquezas, não DE ACORDO com suas riquezas. Assim, DE ACORDO com suas riquezas é uma doação generosa. Deus não dá esmola, mas nos envia riquezas incomparáveis (Ef 1.3) sejam em sabedoria, bondade, graça ou da glória de Cristo, ou seja, da plenitude da sua divindade. Quem tem Cristo tem Tudo. Não só isso, esse é o Deus que realiza muito mais do que podemos pedir ou imaginar (Ef. 3.20).
                 A carta termina então com saudações, graça e glória (WRIGHT, 2014). Saudações à igreja, aos santos em Cristo Jesus. Graça do Amor e rei Jesus, disponível a todos. E Glória somente ao único Deus e Pai, hoje e para sempre. Que possamos guardar essas palavras, e viver na alegria e paz de nosso Senhor. Amém.

Referências:

AZEVEDO, Israel, Belo de. Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas tema por tema.  Editora Hagnos, 2014.
MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005. 
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.




quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Dia 9 – Filipenses 4.1-9 – Buscando equilíbrio



Texto: “Portanto, meus irmãos, a quem amo e de quem tenho saudade, vocês que são a minha alegria e a minha coroa, permaneçam assim firmes no Senhor, ó amados! O que eu rogo a Evódia e também a Síntique é que vivam em harmonia no Senhor. Sim, e peço a você, leal companheiro de jugo, que as ajude; pois lutaram ao meu lado na causa do evangelho, com Clemente e meus demais cooperadores. Os seus nomes estão no livro da vida. Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se! Seja a amabilidade de vocês conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus. Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas. Tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim, ponham-no em prática. E o Deus da paz estará com vocês.” Filipenses 4:1-9

                O pedido tão amoroso de Paulo também é um desejo para nós, permanecer firmes no Senhor! Este não é um caminho fácil e manter a comunhão, amor e alegria podem ser desafios no dia a dia. Com o tempo, pequenas rusgas podem surgir entre irmãos, um mal entendido, uma palavra mal colocada, um olhar enviesado. Como humanos, todos temos nossas rusgas e dias de mau humor, o que pode levar a desentendimentos.  A postura que devemos assumir é a de resolver os desentendimentos o mais rápido possível e restaurar a paz – lembre que o Senhor nos chama a fazer parte em seu ministério de reconciliação, caso contrario, as disputados podem se propagar e as divisões não trazem nada de bom para a Igreja. Diante disso, Paulo apela, usando sua influencia, para que suas colaboradoras no evangelho façam as pazes. Não sabemos qual o motivo da discórdia ou mesmo quem seria o leal companheiro de jugo do qual o apóstolo se refere, mas é apelado para a reconciliação entre Evódia e Síntique. 

                Não há tempo a se perder com disputas, e não há tempo a se perder com ansiedades e preocupações. Quase uma ordenança, Paulo relembra que a igreja deveria se alegrar, regozijar ou, melhor ainda, celebrar no Senhor. Quantas vezes as pessoas associam o evangelho a seriedade e condenação do mundo ao inferno. Mas o evangelho são boas novas de salvação, é a vitória na Cruz e as esperadas bodas do cordeiro. Isso é motivo para alegria – não a alegria vazia de festas e celebrações humanas, mas alegria no Senhor, alegria que perpetuará a eternidade! 

                É fácil cair na armadilha do mundo moderno, cheio de preocupações e ansiedades! E entenda bem, a ansiedade é algo natural diante de uma situação nova como uma viagem a um lugar desconhecido ou diante de uma entrevista de emprego, mas não deve extrapolar limites. Hoje já se reconhece a síndrome da ansiedade como uma doença que pode levar a pressão alta, irritabilidade, falta de sono e outros sintomas. Mas o cristão é alguém que descansa no Pai como uma criança recém-amamentada no colo de sua mãe (Salmos 131). E aqui faz-se um eco com Mateus 6.25-34, onde somos lembrados que o Pai sabe do que precisamos, e que ao buscamos seu reino e Justiça, as demais coisas serão acrescentadas.  

                Ao levarmos a Cristo nossas orações e suplicas, lembramos que nada podemos fazer por conta própria. Ao adora-lo, lembramo-nos de sua grandeza e poder que em tudo nos auxilia. Tom Wright comenta que algumas pessoas dizem ser errado “aborrecer” a Deus com pedidos triviais como um dia ensolarado para o piquenique da igreja ou um lugar para estacionar em uma rua lotada, mas não é isso que a Bíblia nos ensina. Podemos clamar ao Pai sobre qualquer área de nossa vida. Se é importante para nós, também é importante para Deus.  E quando entregamos essas preocupações ao Senhor, podemos descansar em sua Paz, o Shalom, calma interior mesmo diante das grandes tempestades e dificuldades da vida. Não só isso, essa paz que excede todo entendimento ou que ultrapassa nossos sonhos é posta diante de nós como guardas que vigiam uma cidade ou um tesouro. Ralph P. Martin (1985) comenta ainda o fato de que essa paz guarda nossas mentes e corações em Cristo Jesus:
                ...descreve a “esfera” em que se insere a vida interior do crente. Mediante a união com Cristo, em obediência à Sua autoridade, e submissão à Sua vontade, os crentes descobrirão a segurança de suas vidas, à medida que se certificam da proteção divina, “a paz de Deus”.    

                Perceba que devemos andar com ciência de que Perto está o Senhor e a amabilidade deve ser a marca do cristão diante do mundo, mesmo quando perseguido e afrontado. Para conseguir isso, nossa mente deve estar ligada as coisas do alto (Cl 3.1-9). Nossos pensamentos devem ser marcados por aquilo que é verdadeiro, transparente. O diabo é o Pai da mentira, mas Cristo é o caminho, A verdade e a vida. Caminhamos não só em verdade, mas na verdade da Palavra. Aquilo que é honesto, ou seja, que não é corrupto, e aquilo que é justo são também fatores que devem ocupar nosso pensamento. Em um mundo onde cada vez mais de apagam os conceitos morais de certo e errado e onde a própria igreja tem falhado na ética e moral cristã, lembrar daquilo que é justo e correto diante dos padrões bíblicos se faz importante. Não só isso, somos orientados a guarda tudo o que é puro – tanto no sentido de não contaminado, como no sexual. Cada vez somos cercados de apelações a mentiras, relativismo moral e sexualidade deturpada, regular o que deve entrar em nossos pensamentos é uma luta constante. Mas lembrando do velho conselho de Lutero, podemos não impedir um pássaro de voar em nossas cabeças, mas podemos evitar que ele faça ninhos sobre as mesmas. 

                       Tudo o que for amável fala de simpatia, o oposto da grosseria e complementa o fato de que devemos ter compromisso com boa fama. É fácil ser simpático com aqueles que amamos, mas é exatamente com os indesejados que somos orientados e mudar a programação da nossa mente de forma a sermos simpáticos e corteses. 

Lembre que aquilo que enche nossas mentes e corações transborda em nossas ações. Por isso não adiante somente ir a igreja aos domingos se não meditamos na palavra e, principalmente colocarmos em pratica. “Frequentemente, ouvimos a mensagem no culto, mas logo que deixamos o santuário conversamos sobre tudo, menos como pretendemos concretizar o que Deus acaba de nos falar pela Palavra. Esse hábito insensibiliza o coração”(SHEED, 2005). Não adianta a ortodoxia (cuidado com a doutrina) sem a ortopraxia (cuidado com a conduta), e vice-versa. O mundo não só ouve nosso discurso, mas vê nossa pratica - e ambas precisam revelar a Cristo. O resultado de tudo isso? Teremos a paz de Deus e a graça do Deus da paz.
               
Referências:

AZEVEDO, Israel, Belo de. Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas tema por tema.  Editora Hagnos, 2014.
MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005. 
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Dia 8 – Filipenses 3.12-21 – Entre o agora e o ainda não



Texto: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Por isso todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará. Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo. Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam. Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas.” Filipenses 3:12-21

                A Bíblia possui peculiaridades que podem a principio parecer paradoxais. Por exemplo, é um livro que conta como Deus agiu e falou para o povo em uma determinada época, mas cuja mensagem é atemporal. Nestas paginas há profecias especificas para determinados momentos de Israel, mas que também vislumbravam um futuro mais longínquo.  Da mesma forma, há a tensão entre o agora e o ainda não. Embora seja anunciado a chegada do Reino de Deus pelo próprio Jesus, esse reino ainda não está completo – com glória e poder, mas dentro de nós. Nossa salvação foi conquistada por Cristo na Cruz – mas será concretizada em seu retorno triunfal.  Assim também é com a nossa perfeição em Cristo:

Não há contradição nesta realidade, mas tensão. A constância de Cristo (2Ts 3.5) opera em nós quando nos lembramos de que não alcançamos ainda a santidade, na dimensão atual, mas, assim mesmo, vamos prosseguindo para alcançar a perfeição para a qual fomos alcançados por Jesus (Fp. 3.12-13). (AZEVEDO, 2014)

Paulo chama atenção de que, enquanto estivermos nesta terra, enquanto não vier aquele que é perfeito e que restaurará todas as coisas, nós ainda caminhamos para um alvo, a soberana vocação, o chamado de Cristo. Muitos poderiam alegar que eram perfeitos, e de fato já se propagava o agnosticismo entre varias congregações. Baseados na filosofia grega, onde o corpo material era considerado algo ruim e pervertido, considerando a pureza algo interno e espiritual – como a nós dentro de uma casca. Assim, os agnósticos seguiam dois caminhos distintos. Uma vez que a realidade material era má, e o espírito bom, alguns consideravam que não importava o que se era realizado com o corpo, uma vez iniciado na realidade espiritual, uma corrente libertina, caminhado rapidamente para as perversões e prostituição (Ap 2.14,21, Jd 4,7-16). Outra postura estrema era a do ascetismo, onde, através de ritos e prescrições ou leis, era possível subir a escada da espiritualidade.

Porém tanto o antigo, como o novo testamento enxergam o corpo como algo que se identifica estritamente com você (SHEED, 2005). Não há algo de ruim na criação de Deus, este corpo é somente o barro do qual Deus sopra o folego de vida (Sl 104.29,30), e foi nesta casa que Cristo veio habitar, e foi seu corpo que foi oferecido em nosso favor, e assim devemos nós também oferecer nosso corpo como sacrifício agradável (Rm 12). Ao negarem isso, bem como a Cruz de Cristo, e ao se intitularem perfeitos, os gnósticos iam na contramão da pregação de Paulo e viviam somente para agradar ao seu próprio ventre, ou seu próprio umbigo, fazendo de si mesmo seu próprio deus. 

Paulo recomenda seguir seu exemplo e de muitos outros irmãos como ele e, assim como um atleta, focar na meta, na linha de chegada. Reiterando o que havia sido dito nos versos anteriores, Paulo deixa tudo para trás, mesmos as conquistas adquiridas no caminhar não poderiam ser empecilho para prosseguir e terminar a jornada. Quantos na igreja pensam já ter alcançado tudo e de que não precisam de nenhum esforço ou que já alcançaram a perfeição? Outros ainda, ao contemplar o exemplo de outros homens de Deus, ou irmãos no cotidiano, acham que nunca chegarão a tal escala de espiritualidade, e preferem viver em uma fé medíocre. Nenhum, nem outro. 

Paulo diz que devemos olhar e prosseguir para o alvo como um corredor olha para a linha de chegada. Mais que chegar ao céu, seu objetivo era viver com Cristo em seu novo corpo. De fato, para ele, a verdadeira maturidade era continuar nos pressionando para frente, até atingir o alvo e receber o “bem vindo, servo bom e fiel!”. Ela ainda não havia chegado ao final da carreira, ainda não havia recebido o premio, então lutaria até chegar lá. 

Diante disso, recomenda aos irmãos que vivam como cidadãos dos céus. Os filipenses eram parte de uma colônia romana, com todos os direitos de cidadãos, mas deveriam viver seguindo as regras de outro reino, seriam colônia dos céus nesta terra. Claro que não somos perfeitos, termos um corpo de humilhação, ou abatido, que muitas vezes reivindica conforto e segurança e não a morte e o serviço (1Co 9.13). Mas, em certo paralelismo com Fp. 2.1-11, Cristo nos transformará em seu corpo glorioso, segundo seu “poder de sujeitar também a si todas as coisas”.   

Música: Errando e Aprendendo – Resgate


Referências:

AZEVEDO, Israel, Belo de. Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas tema por tema.  Editora Hagnos, 2014.
MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005. 
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.