Páginas

Mostrando postagens com marcador Jejum. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jejum. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de janeiro de 2017

Dia 14 (28.1.2017) – Colossenses 4.10-18



“Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (sobre quem recebestes instruções; se ele for ter convosco, acolhei-o), e Jesus, conhecido por Justo, os quais são os únicos da circuncisão que cooperam pessoalmente comigo pelo reino de Deus. Eles têm sido o meu lenitivo.  Saúda-vos Epafras, que é dentre vós, servo de Cristo Jesus, o qual se esforça sobremaneira, continuamente, por vós nas orações, para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus. E dele dou testemunho de que muito se preocupa por vós, pelos de Laodicéia e pelos de Hierápolis. Saúda-vos Lucas, o médico amado, e também Demas. Saudai os irmãos de Laodicéia, e Ninfa, e à igreja que ela hospeda em sua casa. E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodicéia, lede-a igualmente perante vós. Também dizei a Arquipo: atenta para o ministério que recebeste no Senhor, para o cumprires. A saudação é de próprio punho: Paulo. Lembrai-vos das minhas algemas. A graça seja convosco.” (Colossenses 4.10-18 - ARA)


O Evangelho não se trata de ideias abstratas, mas de pessoas. Nos dias de hoje, ao se imaginar um religioso, um homem de fé, as pessoas pensam ou num (quase) semideus, ou numa farsa. Seria alguém de voz mansa e tranquila, de poucos amigos ou contatos, mais do céu do que da terra. Paulo nos desfaz destes pensamentos. Tinha tato para falar com a igreja, mas era duro quando necessário, amava as pessoas e sabia que ser cristão e herdeiro de bênçãos celestiais não o isentava de responsabilidade como estrangeiro nesta terra. O apóstolo sabia que o Evangelho é também uma comunidade da fé e valorizava seus colaboradores, amigos e irmãos. Aqui ele apresenta um grupo diversificado de pessoas que estavam próximas, sejam em orações, sejam fisicamente.  
Os três primeiros faziam parte do grupo da circuncisão, ou seja, judeus. Eram Aristarco, Marcos e Jesus Justo. Aristarco era membro da igreja de Tessalônica e havia participado da viagem a Jerusalém, onde seria levada uma coleta da Grécia para os irmãos na Judéia (At 20.4); o mesmo é tratado como “prisioneiro comigo” (literalmente “de guerra”). Marcos, primo de Barnabé, foi o mesmo que anos antes havia abandonado ao apóstolo na primeira viagem missionária (At 13.3). Agora reconciliado com Paulo e sem rancor da parte dele, Marcos recebe elogios e instruções para que seja bem recebido por aquela parte do Corpo. Anos mais tarde, Paulo o descreveria com carinho, pedindo seu retorno: “... traze-o, pois me é útil para o ministério” (2 Tm 4.11). Quanto a Jesus Justo, não sabemos muito, a não ser que era um judeu convertido e também chamado aqui de colaborador no Reino.
Logo depois Paulo envia a saudação de três irmãos não judeus: Epafras, Lucas e Demas. Epafras é chamado literalmente de escravo de Jesus Cristo e de homem de oração, que constantemente clamava por sua comunidade da fé. Como um pai se preocupa com os filhos, Epafras clamava a Deus para que crescessem em maturidade, discernimento e entendimento pleno na vida espiritual. Lucas era o médico amado, responsável pelo Livro de Atos e o Evangelho que leva seu nome. Lucas viajou várias vezes com o apóstolo, era uma pessoa admirável e sempre leal a Paulo e ao evangelho. Hendriksen aponta que Paulo e Lucas tinham muito em comum: “Ambos eram homens de muito estudo, homens de cultura. Ambos possuíam um grande coração, mente aberta e coração compassivo. Ambos eram crentes e missionários.” Por fim Demas, também chamado colaborador (Fm 24), um dos assistentes no ministério, provavelmente evangelista. Paulo não sabia, mas cerca de seis anos depois Demas abandonaria o evangelho: “Demas me abandonou porque se apaixonou pelo presente século, e se foi para Tessalônica” (2Tm 4.10).    
Passa-se então a outras saudações e recomendações. Paulo saúda as igrejas do vale do Lico, Laodicéia e Hierápolis, que estavam a poucos quilômetros de distância, e particularmente aos cristãos que se reuniam na casa de Ninfa. Somente no século sexto os cristãos se reuniriam em templos para adoração, antes disso eram comuns encontros nas casas ou outros lugares reservados. Ninfa provavelmente possuía uma casa grande para receber a igreja, o que indica ser uma senhora rica. Perceba também que, apesar de haver mais de uma congregação em uma cidade, não se usava o plural para descrevê-las. Havia somente uma Igreja em cada localidade, mesmo que reunida em diversas casas. Outro nome citado é Arquipo, filho de Filemom, que vivia em Colossos e em cuja casa a igreja se reunia. Foi chamado  de “nosso companheiro de luta” em Filemom, mas Paulo o exorta aqui: “atenta para o ministério que recebeste no Senhor, para o cumprires”.  Alguns apontam essa curta mensagem como alerta contra a falta de diligência ou energia no ministério, um clamor para que a própria igreja o encoraje. Outros apontam a necessidade de lutar contra as heresias que estavam contaminando a comunidade.
Perceba que a carta deveria ser lida e trocada com uma carta enviada aos Laodicenses, que muitos estudiosos acreditam ser a carta aos Efésios que estava circulando entre as igrejas e que guarda temas semelhantes com a carta aos Colossenses. Este era o período pré-canônico do Novo Testamento e as cartas já começavam a ganhar importância e substituir a presença física dos apóstolos. Por isso o próprio autor, que deve ter ditado a carta, chama atenção ao fato de que ele os saudava com a graça de Deus e assinava com o próprio punho, para que não houvesse dúvida de autoria, pois mesmo naquela época já circulavam falsas epístolas com seu nome (2Ts 2.2).
Ao se chegar ao final da carta, com tantas saudações, é impossível não se admirar com o alcance do Evangelho; de ricos e mestres a escravos e pobres, de sábios e médicos a pessoas simples e sem cultura, de judeus a gentios, homens e mulheres. A igreja é única, mas é também diversificada. Ela também não é perfeita, no seu próprio meio há muitos que não permanecessem na corrida. Diante de toda diversidade, fracos como somos, Deus nos usa como linhas que serão tecidas em um belo tapete. É uma só família, mas é plural, com pessoas de vocações, chamados, posições sociais e culturas diferentes, que nos desafiam a suportar e amar mesmo quando contraditório. O que nos une? A mensagem do Cristo, único, poderoso e suficiente Salvador, que nos amou e nos convida a fazer parte de Seu Reino.


Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
Tom WRIGHT; Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.

William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Dia 12 (26.1.2017) – Colossenses 3.18-4.1


“Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura. Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato diante do Senhor. Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desanimados. Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas. Senhores, tratai os servos com justiça e com equidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu.” (Colossenses 3.18-4.1 - ARA)


Relacionamentos nem sempre são fáceis, mas são bons indicadores de como anda nossa vida com Deus. Isso se deve pelo fato de que o amor de Cristo habita em nós e nos reconcilia com Deus e com próximo. Se no mundo moderno a religiosidade deve se restringir ao particular, para o cristão abrange todos os aspectos de sua vida, seja casamento, seja paternidade, seja no mundo do trabalho. Alguns aspectos deste trecho de colossenses aspectos devem ser evidenciados:
  • Apesar do mundo recusar autoridades e o próprio termo “submissão”, esta é uma realidade bíblica. Não podemos escolher o que nos agrada ou não na Bíblia, mas obedecer.
  • É de extrema valia analisar este trecho comparado com Efésios 5.21-33 e 6.1-9, onde podemos ter complementos ao que está sendo dito.
  • A submissão ou obediência não pressupõe superioridade ou inferioridade das partes, lembre-se que que em Cristo “não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre”.
  • O que se diferencia aqui são os papéis, pais e filhos, esposa e esposo, servos e mestres. Ao marido, foi definido papel de liderança, a esposa de auxiliadora, os filhos devem confiar na orientação dos pais, etc.
  • Todo o contexto aqui está baseado no amor e não é qualquer amor, mas amor ágape. Se amamos não vamos maltratar, escravizar, irritar, etc., caso contrário não é amor e não está firmado em Deus.
  • Apesar do “tudo obedecei“ de Paulo, está claro que se determinada ordenança vai contra a Palavra de Deus, convém obedecer antes a Deus que aos homens (At 5.29), ou seja, a submissão não é absoluta.
  • Há um caráter recíproco nestas admoestações. Ou seja: um dever não ocorre às expensas do outro, há um equilíbrio. Por exemplo, os filhos devem obedecer aos pais, mas os pais devem criar uma atmosfera de amor e confiança em que a obediência seja algo fácil e natural.
  • Tudo é feito através e para Cristo, para o louvor de Deus. Não se pode obedecer da boca para fora ou buscando agradar aos homens, mas buscando fazer tudo para a glória de Deus.  Ao mesmo tempo, somente em Cristo podemos obedecer e cumprir as recomendações feitas aqui.
“Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura.” Em um casamento, um cônjuge se submete ao outro, mas o papel de liderança foi dado por Deus ao homem. Isso, de forma alguma, significa que o marido não vai ouvir sua esposa e considerar sua opinião. A atitude do esposo deve ser amável, buscando seu bem e se dedicando a ela assim como Cristo se entregou pela Igreja. Não deve tratá-la com aspereza, ou seja, de forma maldosa,  grosseira, humilhando ou ignorando. Neste contexto, não fica difícil para a mulher amar e se submeter ao marido. O acréscimo “como convém no Senhor” nos lembra de que, se algo, na iluminação recebida em Cristo, indicar que estão indo contra a palavra de Deus, a mulher deve apresentar reprovação.
 “Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato diante do Senhor. Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desanimados.” O exemplo de relacionamento parental está no próprio Cristo com o Pai. Quando Paulo diz que os filhos devem obedecer “em tudo”, pressupõe que seus pais sejam cristãos e estejam dando a orientação correta, mas isso também não isenta a rebelião quando os pais não são cristãos. Em contrapartida, os pais não devem irritar os filhos a ponto de perderem a motivação. Muitos caem em extremos: ou ficam receosos e nunca disciplinam os filhos, criando verdadeiros criminosos, ou possuem dura cerviz, de forma a gerar apatia e revolta na prole. Disciplina deve ser com amor e perdão (Hb 12.4-12).
Um aspecto interessante é que Paulo dedica a maior parte das recomendações sociais aos escravos/servos e mestres. Isso pode ter acontecido por duas razões: (1) haviam muitos escravos convertidos no império romano e (2) junto a carta aos Colossenses estava sendo encaminhada uma carta a Filemom, do qual Paulo fala sobre o escravo Onésimo que havia fugido de seu dono e acabou se convertendo ao encontrar o apóstolo e ouvir a mensagem de Salvação.
O tema escravidão na Bíblia não será tratado aqui, mas vale a observação de que as recomendações bíblicas estavam muito à frente de seu tempo e influenciaram muitos cristãos a lutar contra tal prática. Em todo caso, é importante para os nossos dias, em termos trabalhistas, a recomendação para trabalhar não buscando aprovação humana, mas de Deus. Todo trabalho realizado pelo homem, se torna assim trabalho para glorificar a Deus. É responsabilidade do cristão colocar suas vocações, serviço e cumprimentos de responsabilidades no altar de Deus. Nas palavras de Nicodemus: “ele está dizendo que o cristão pode servir ao Senhor mesmo estando encarcerado, em um subemprego ou em qualquer realidade que se encontre.”
O alerta “pois, aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita” serve tanto para os escravos quanto aos mestres, pois o Deus a Quem servimos há de recompensar cada um por seus atos. Justiça com equidade é algo enfatizado para os senhores e patrões e quer dizer: “respeitar integralmente os méritos do escravo ou empregado, que tem garantido pelo Criador, o direito de receber uma justa porcentagem do fruto do seu trabalho (veja 1Co 9.7-9; 1Tm 5.18) (Shedd). O cristão não pode viver algo na Igreja e algo diferente fora dela. Ou ele é cristão ou não é. Ou Cristo afeta todas as áreas de sua vida, ou a pessoa se admite hipócrita. Afinal, não existem meios termos no discipulado cristão.


Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Dia 11 (25.1.2017) – Colossenses 3.12-17


“Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição. Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” (Colossenses 3.12-17 - ARA)


Um pastor de jovens alertou-me certa vez: como igreja temos o costume de apontar o que não fazer, o que deixar de fazer, o que é errado ou pecaminoso; porém, esquecemos de informar aos jovens o que eles podem e devem fazer, quais são as qualidades que devem possuir, qual o caminho a seguir. E ele está absolutamente certo, e não só com relação ao ministério de jovens. Às vezes esquecemos de apontar o que fazer, ao invés de enfatizar o que não fazer. Paulo sempre busca aplicações práticas para seus ouvintes, e não só coloca o princípio de Cristo e a ação de se despir do velho homem, mas também de se revestir do novo. Como nova criação e sob um novo olhar de Deus – santos, eleitos e amados, buscamos novas vestes no lugar dos trapos puídos do passado.  
A lista apresentada aqui pode ser comparada com a dos versos anteriores, e facilmente se constata que são completamente opostas entre si: ternos afetos de misericórdia, bondade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando uns aos outros, prontos a perdoar e aliançados em amor. “Ternos afetos” nos remete a sentimentos de simpatia – algo difícil em um mundo que caminha e valoriza a violência a ponto de nos alienar, de nos deixar indiferentes ao sofrimento alheio. A bondade ou generosidade descreve a maneira que o próprio Deus trata os homens. Sendo um dos componentes do fruto do Espírito (Gl 5.22), só podemos desenvolver dependendo, pela fé, da ação divina. Humildade nos remete ao próprio Cristo, cujo exemplo somos convocados a seguir (Fp 2.5-8). Mansidão e longanimidade caminham juntas. Aliás, perceba que há uma sobreposição destas qualidades: uma pessoa de coração compassivo também será bondosa, uma pessoa humilde também será longânima, etc.   
Usando novamente um princípio, “Assim como o Senhor vos perdoou”, o apóstolo nos fala da necessidade de perdão: “assim também perdoai vós”. Isso está tão enraizado na mensagem cristã que não pode ser discutido. Há uma necessidade tanto da prontidão para perdoar como da vigilância para não pecar contra o irmão. E o que mantém estas vestimentas unidas é o amor, amor ágape, amor que vem de Deus. O amor é aquilo que une os crentes e os faz prosseguir para a perfeição.      
A paz de Cristo, que excede todo entendimento, deve ser o árbitro em nossos corações, ou seja, assim como um árbitro em um jogo aponta os erros e acertos. Em outras palavras: quando precisamos tomar uma decisão devemos buscar a vontade de Deus, sentir sua paz. Conforme aponta Shedd: “Eis, pois, uma excelente regra a seguir na busca da vontade de Deus. Sinto no coração paz que Cristo dá? A decisão cria conflito ou promove a paz? Já que “fomos chamados e um só corpo”, que é a igreja, devemos achar que não importa aos outros o que fazemos individualmente (Rm 12.17,18; Hb 12.14)?” Mas você pode perguntar: Isso não é subjetivo demais? Por isso os versos 15 e 16 não devem ser lidos separados. Pela obediência, o evangelho da paz é transmitido ao coração. Somos exortados que a palavra de Cristo – o que Ele ensinou – encontre habitação em nosso coração e governe cada desejo, intenção, pensamento e ação de forma tão rica que possamos ensinar uns aos outros.  É muito propícia a colocação de Israel Belo de Azevedo neste ponto:
Uma igreja – o que se aplica à sua liderança, vale dizer seus pastores, e aos seus membros – deve ser muito cuidadosa para não cometer abusos, tendo todos sempre em mente que uma igreja, mais que um lugar de correção e/ou disciplina, é um lugar de distribuição da graça; mais que um lugar em que as pessoas estejam com o dedo em riste, uma igreja é uma comunidade de pessoas que apontam para o céu, de onde vêm direção, correção e conforto.    
Essas emoções restauradas devem vir acompanhadas de gratidão.  Uma pessoa cheia de gratidão e que aprecia os benefícios recebidos de Deus, não se encherá de cobiça pelas riquezas ou talentos de outra pessoa; sendo assim, a gratidão promove a paz. Somos chamados a entoar louvores ao nosso Deus com sinceridade de coração, através de salmos, de hinos que exaltem a Cristo (como Fp 2.6-11) ou de cânticos sob a orientação do Espírito Santo. Tudo em nossa vida deve ser motivado por Jesus Cristo e para sua Glória, numa atitude de gratidão contínua por Seu grande amor e paz sem fim.


Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Israel Belo de AZEVEDO; Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas tema por tema.  Editora Hagnos, 2014.
Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
Tom WRIGHT; Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.

William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Dia 10 (24.1.2017) – Colossenses 3.5-11


“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar. Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos.” (Colossenses 3.5-11 - ARA)

Após exortar a igreja a buscar as coisas do alto e pensar nas coisas celestiais - resultado não de ação humana, mas da morte e ressurreição em Cristo – Paulo apresenta as implicações práticas da união com Cristo. “Portanto, fazei morrer as coisas pecaminosas e terrenas que estão dentro de vocês” diz a Nova Versão Transformadora. Aqui há um jogo de palavras: no verso 3.3 ele diz “vocês morreram”, usando a palavra grega apethanete (morrer, perecer), enquanto no versículo 5 diz “façam morrer”, usando a palavra nekrosate (de onde vem a idéia de necrosar, decompor, fazer morrer). As duas colocações podem, à primeira vista, parecer uma contradição, mas apesar do foco cristão ser o céu, sua natureza terrena carrega a fragilidade e corrupção adâmica. Há uma luta entre carne (no a natureza humana caída, Rm 7 e 8) e o Espírito, de forma que a santificação precisa ser progressiva (2 Co 3.18; Fp 1.6, 3.12,13).
As inclinações carnais aparecem em duas categorias, vícios e pecados coletivos (ou de discurso). Nos vícios temos: prostituição, paixão lasciva, desejo maligno e avareza, identificada com idolatria. A palavra usada aqui para prostituição, porneian, se refere a qualquer pecado de natureza sexual, e de fato as palavras do grego para impureza, prostituição e paixão são parecidas. Elas indicam tudo aquilo que foge da dinâmica estipulada pelo Senhor, ou seja, o sexo dentro de um casamento heterossexual. A natureza terrena busca somente se satisfazer à sua maneira, não importando que para tudo há um tempo, modo e circunstância. O desejo em si, por exemplo, não é algo mau, por isso Paulo usa “maus desejos” ou “desejos malignos” ou até mesmo cobiça. A avareza se refere a ideia de tirar vantagem, muitas vezes iludindo ou prejudicando alguém. O crente que ama ao dinheiro busca juntar tesouros terrestres e não celestiais, colocando seu coração no lugar errado. Perceba que o resultado disso é a ira de Deus, Sua justa reação diante do pecado ao castigar a desobediência – e os cristãos não estão isentos disso.
A moralidade apresentada por Paulo é diferente de qualquer religião. Enquanto normalmente as religiões dizem “Faça isso e será salvo”, o cristianismo diz “Você já está salvo, portanto faça isso”, ou seja, temos imperativos baseados no indicativo. Somente no poder de Cristo que o homem pode vencer os desejos carnais. Cristo derrubou o domínio do pecado, “enfraqueceu o seu poder e matou suas raízes, de maneira que não possa dar o fruto da morte eterna no crente” (Kris Lundgaard). Por isso podemos obedecer. Como “já fostes crucificados com Cristo”, podem agora fazer “morrer a vossa natureza terrena”.
Na segunda categoria de ações que deveriam ficar no passado temos: ira, indignação/raiva, maldade, maledicência, linguagem obscena e mentira. Perceba que Paulo se preocupa tanto com os pecados sexuais quanto de discurso, pois ambos causam sérios danos tanto aos que cometem quando aos atingidos, sendo perigosos para uma comunidade – e bom seria se a igreja moderna balanceasse isso corretamente. A ira e indignação (ou ódio) identificados aqui são diferentes da ira divina, sendo identificados como irritação violenta e breve, como fogo de palha. A maldade significa criar problemas, uma atitude culpável de iniquidade. Maledicência se encontra na mesma linha de pensamento; ser maledicente é ter a intenção de caluniar, abusar e destruir o valor de uma pessoa com palavras. A mentira, por fim, ressalta o que já foi listado. O que mente se identifica com o diabo, o pai da mentira (João 8.44).
A ordem aqui é nos despojarmos de tudo isso para vivermos uma vida de pureza. Devemos deixar o velho homem, que se identifica com Adão, para nos revestir do novo homem, que se identifica com Cristo. Conforme aponta Shedd, “um costume oriental da antiguidade pode oferecer-nos um pano de fundo para essa figura. Quando um alto oficial do governo era deposto, era obrigado a despojar-se das vestimentas relativas à sua posição.” Uma visão cotidiana poderia ser a de alguém que chega em casa cansado do trabalho, toma um banho e coloca roupas confortáveis e perfumadas. Aqueles que nasceram de novo trocam seus trapos de imundícia (Is 64.6), por vestes de louvor. Esta nova condição nos coloca em processo de transformação diária à imagem do nosso Salvador. Longe de ser algo exclusivo de um grupo seleto, mas alcança pessoas de todas as etnias e religiões (nem judeu, nem grego), de todas as sociedades (nem escravo, nem livre), de todos os sexos (nem homem, nem mulher) e todas as culturas (bárbaro ou cita, a mais violenta e baixa classe dos bárbaros). Cristo é tudo em todos!
O que Paulo deseja aqui é que a Igreja se aproprie de sua nova identidade em Cristo, que as pessoas descubram o sentido de serem genuinamente humanas: que possam claramente entender as implicações de um comportamento sexual ou do que parece ser uma simples conversa. Isso exige pensar corretamente e apoiado na verdade, uma tarefa nem sempre fácil, mas no qual podemos contar sempre com nosso Senhor.             
Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Kris LUNDGAARD; O Mal que habita em mim. Editora Cultura Cristã, 2014.
Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
Tom WRIGHT. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.

William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemon (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dia 9 (23.1.2017) – Colossenses 2.20-3.4

Photo by Elena Shumilova

“Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade. Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória.”
(Colossenses 2.20-3.4 - ARA)



Penso que muitas surpresas chocarão o mundo com o retorno de Cristo e o estabelecimento eterno de seu Reino. O próprio Jesus prenunciou isso ao dizer que muitos em Seu nome profetizariam, curariam e expulsariam demônios, mas seriam completos desconhecidos Dele. Outros, porém, em gestos simples como oferecer água ao sedento, alimentar o faminto, vestir o necessitado ou visitar um prisioneiro, descobrirão que estavam auxiliando o próprio Cristo. Surpresas nos esperam com toda certeza. Aqueles que não vemos nos palcos ou púlpitos; aqueles que secretamente se dedicaram em oração e auxílio ao próximo; e até mesmo aqueles que viveram uma vida aparentemente comum, sem grandes acontecimentos – estudaram, trabalharam, etc. – no fim, surpreenderão o mundo que olhará perplexo e descobrirá que debaixo daquele ser humano aparentemente comum, habitava o Criador e Senhor de todas as coisas. Ali, naquele momento, se revelará sua verdadeira e eterna natureza.
Nem sempre sentimos isso, mas crer é parte essencial de ser cristão. Estamos unidos com e em Cristo. Já morremos para o mundo e seu sistema. Um morto não tem vontade própria, não se submete mais aos atos mundanos e requerimentos religiosos. Um morto não está mais debaixo de tradições humanas do “não mexa, não toque, não prove!”. Um morto foi completamente cortado da sujeição aos elementos e poderes espirituais que anteriormente controlavam sua vida. Se morremos no batismo, isso é coisa passageira, que se deteriora com o passar do tempo.

A questão aqui é que, como humanos, sentimos desejo de um caminho claro, delineado, uma fórmula de como obter e valorar nossa salvação e desenvolvimento. Para os cristãos de Colossos e para igreja atual, parece muito mais prático um sistema de regras bem definidas. Entramos então em outra tendência combatida por Paulo: ascetismo, ou seja: a abstinência de prazeres e alimentos dentro da fé bíblica, de forma a promover autoflagelação. O objetivo é alcançar um nível superior de espiritualidade, de vencer a carne, mas, como Paulo declara: “não têm valor algum contra a sensualidade”. Podem nos fazer parecer humildes, espirituais, nos dão a sensação de que avançamos moralmente, mas não servem de nada. Estavam trocando a autoindulgência mundana por autoindulgência religiosa, o que se caracteriza como mera ilusão.

A verdadeira solução é Jesus, o único Caminho. Somente Sua habitação em nossas vidas pode nos fazer santos e maduros.  Apesar da Almeida Revista e Atualizada usar “se fostes ressuscitados juntamente com Cristo”, com o “se” indicando possibilidade, a versão em grego fala de uma certeza, de algo que já aconteceu: “Já que fostes ressuscitados com Cristo” ou “sendo que fostes ressuscitados...”. O cristão morre com Cristo, o cristão ressuscita com Cristo.  Como cristãos, passamos a pertencer a um novo mundo, a nova criação de Deus, que aos poucos substitui a velha criação.

Por isso Paulo faz o contraste entre as coisas da terra e as coisas do céu. Devemos buscar as coisas de cima, pois as temporais irão passar (Mt 6.33). Devemos pensar nas coisas lá do alto, ou seja, a inclinação da nossa mente não deve ser obcecada pelos valores materiais, mas pelo que é eterno. Contemplamos nossa cidadania celestial, nossa herança prometida (Fp 3.19,20 e Hb 11.13). A união com o Cristo exaltado transforma nossa vida: mente, coração e vontade. O andar agora é no Espírito e os pensamentos estão naquilo que louva e glorifica a Deus (Fp 4.8,9 e Gl 5.16).

Quando a majestade de Cristo se manifestar publicamente, seremos também com Ele, pois Ele habita em nós. Creiamos e vivamos esta mensagem: nossa vida não nos pertence, mas está guardada, protegida e suprida em Deus. Não pertencemos mais ao mundo. Nosso ponto de referência, nosso guia, nosso caminho se encontra no Salvador. Um dia com Ele morremos. Um dia seremos glorificados com (e como) Ele.


Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.


Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
Tom WRIGHT. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.
William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Dia 8 (22.1.2017) – Colossenses 2.13-19


“E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz. Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo. Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado, sem motivo algum, na sua mente carnal, e não retendo a cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem-vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus.” (Colossenses 2.13-19 - ARA)

Um pastor palestino visitou igrejas no Brasil. Depois de alguns conferências, iria pregar em uma igreja evangélica. Sentou-se no lugar determinado e prestou atenção. Pessoas tocavam shofar e festejavam a entrada de uma réplica da arca da aliança. Uma bandeira de Israel e símbolos da estrela de Davi se espalhavam pela congregação enquanto irmãos caracterizados como levitas do Antigo Testamento se apresentavam na Igreja. Sem saber como reagir a tudo aquilo, o pastor se levantou e saiu. O irmão que o havia convidado perguntou se havia algo errado, ao que o pastor respondeu: “Vocês estão vivendo no Velho Testamento? Para que tantas coisas da cultura judaica? Vocês não são cristãos? Onde está a cruz?”. Constrangido, o amigo brasileiro respondeu que muitas igrejas se apegaram à símbolos do judaísmo e que era importante aquele pastor ensinar a verdade naquela comunidade.
Não era muito diferente a situação de Colossos: muitas comunidades judaicas acabavam adentrando às igrejas e retirando o foco de Cristo para práticas da circuncisão, regulamentos da alimentação e pureza, festas específicas e guarda de sábados. Além disso, se misturava ao gnosticismo, com a adoração aos anjos, e ao misticismo, ancorando-se não à Palavra de Deus, mas em meros sonhos, visões e sentimentos. Os mesmos perigos se encontram na Igreja atual e precisamos olhar para o que Paulo tem a dizer sobre isso.
Continuando a falar sobre a obra realizada na Cruz, somos alertados a não nos colocarmos debaixo de outro jugo de escravidão. Antes, os colossenses estavam na incircuncisão da carne, ou seja, mortos moral e espiritualmente devido as transcrições contra a lei e seu estado natural pecaminoso, impotente e desesperador. Paulo chama a atenção da condição miserável que se encontravam, até que o mesmo Deus que levantou Cristo dos mortos, deu vida aos colossenses no mesmo ato. Três ações são destacadas aqui, Deus: nos concedeu perdão (v.13), apagou a dívida escrita (v. 14) e desarmou espíritos (v.15).
Os termos usados nos versos 14-15 são de especial importância. “... cancelado o escrito de dívida” nos fala de apagar, remover, queimar ou inutilizar uma acusação ou dívida escrita. É como se estivéssemos em um tribunal e a lista de acusações é lida, mas o Justo Juiz, satisfeito com a morte de Cristo, nos anuncia inocentes. A Lei apontava nossos pecados e o que deixamos de cumprir, mas nossa dívida foi cravada na cruz junto com Jesus. Deus não apenas cancelou a dívida como destruiu o documento em que ela estava registrada! “Agora já não existe nenhuma condenação para as pessoas que estão unidas com Cristo Jesus” (Romanos 8.1).  A partir daí Paulo trata da conquista dos poderes malignos dizendo que eles foram despojados (derrotados, neutralizados, despidos ou “lhes retirado todas as armas”), expostos ao desprezo (exibindo-os como poderes impotentes) e vencidos através da cruz – o termo “triunfando” faz referência a um cortejo triunfal de um general romano após uma conquista vitoriosa de um novo território, onde o comandante vai a frente, sendo recebido com flores, e os cativos vencidos seguem atrás, amarrados e sendo alvo de escárnio.
A conclusão que Paulo leva seus ouvintes/leitores é: se Cristo venceu todos os poderes e hostes malignas, poderiam os cristãos os adorarem e se submeter a eles? Porque adorar a anjos ou demônios se Cristo é seu Senhor e Conquistador? E ainda: se nossa acusação foi anulada, porque continuar seguindo tradições humanas?

Os ensinos, festas, regulamentos e guarda do sábado eram sombras do que viria. Há uma diferença grande entre a sombra e o objeto material. Augustus Nicodemus afirma que essa “sombra” nos remete a imagem de uma pessoa que tem atrás de si uma fonte de luz. Conforme a mesma se aproxima de nós, observamos que a sombra começar a diminuir gradativamente, até que finalmente essa pessoa se encontra ao nosso lado. Não é mais necessário a sombra quando se contempla face a face a materialização de Cristo.

Mas sempre existem pessoas que, guiadas pelo espírito humano, por sonhos ou visões, buscam impor sua própria experiência sobre as outras pessoas. A estes, influenciados por um misticismo cego, Paulo adverte: “Ninguém se faça árbitro contra vós outros” – o termo aqui significa “Ninguém vos prive do prêmio”, ou seja, ninguém pode os desqualificar ou condenar. Muitas destas pessoas podem aparentar humildade, mas ensinam heresias. Por outro lado, há aqueles que até tiveram experiências válidas, mas não podem impor o mesmo sobre outros irmãos - faz parte da ação de um Deus pessoal que atua de formas diferentes com pessoas diferentes.

Novamente a resposta é clara: tudo o que a igreja de Colossos precisava, e tudo o que nós precisamos é Jesus. Somente tendo Cristo como O Cabeça, podemos vivenciar o crescimento ordenado e bem articulado. Unido em Cristo, o corpo cresce à medida que é nutrido pelo próprio Deus. Toda a vida cristã deve andar em inteira dependência de Deus.  Os costumes e culturas, as práticas e visões podem passar, mas Sua verdade jamais falhará.      


Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Israel Belo de AZEVEDO; Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas tema por tema.  Editora Hagnos, 2014.
John STOTT; A cruz de Cristo. Editora Vida, 2006.
Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
Tom WRIGHT. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.
William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.