Perguntas e respostas para quem quer se contextualizar antes, durante, e após a leitura da epístola.
P: Quem é o autor?
R: Apóstolo Paulo. Levado a Roma como prisioneiro político, Paulo passou dois anos detido na cidade. Neste período escreveu as cartas aos Efésios, Filemom, Colossenses e, provavelmente, Filipenses. Alguns questionam se Paulo já esteve em Colossos, mas há grandes possibilidades de ter passado pela cidade em sua terceira viagem missionária – viajando de Antioquia da Síria até Éfeso, na Ásia Menor (Atos 18 e 19).
P: Quando a carta foi enviada e quem foram os portadores?
R: Possivelmente em algum período entre 61 e 63 d.C., ou talvez próximo disso, pelo menos antes da redação de Filipenses. Tíquico entregou as cartas aos destinatários. Estava acompanhado de Onésimo, o escravo convertido que deveria retornar ao seu senhor Filemon (Cl 4.7-9). Levavam consigo mais duas outras cartas: uma para ser entregue a Filemom (Fm 10.17) e outra aos laodicenses, que alguns estudiosos acreditam ser, na verdade, a carta que hoje conhecemos como “Epístola de Paulo aos Efésios”.
P: Quais o(s) destinatário(s)?
R: Paulo cita três cidades em suas cartas: Hierápolis (Cl 4.3), Laodicéia (Cl 2.1; 4.13-16) e Colosso ou Colossos (1.2). Eram cidades originalmente da Frígia que se tornaram parte da província romana da Ásia – atual Turquia, na Ásia Menor. As três cidades situavam-se no vale do Lico. Hierápolis e Laodicéia se encontram de lados opostos do rio Lico, distanciadas entre si cerca de 10 quilômetros, enquanto Colossos se estendia ao longo do rio, cerca de 20 quilômetros ao sul.
Era uma região marcada por atividades vulcânicas, possuindo terreno fértil. As águas barrentas do rio eram ideais para tingir tecidos devido aos depósitos de greda, o que ocasionou o crescimento do comércio da tinturaria. Laodicéia era conhecida por suas riquezas, seu prestígio político e comércio (Ap 3.14-22), auxiliado por se encontrar na rodovia Oriental, que dava acesso a outras quatro estradas. Hierápolis era ainda mais conhecida devido suas fontes de vapores e águas termais, que muitos acreditam terem poderes curativos. Por fim, Colossos era a menor cidade e estava em declínio – o que torna ainda mais interessante o fato de Paulo endereçar sua epístola a esta cidade, pois evidencia sua preocupação com o corpo de Cristo tanto nas grandes como nas pequenas cidades.
P. Qual o propósito da carta?
R: Na carta aos Colossenses, Paulo afirma ter recebido a visita de um cristão chamado Epafras, que havia se convertido na cidade de Éfeso mediante a pregação do apóstolo (At 19). Após converter-se, Epafras foi enviado a sua aparente cidade natal, Colossos, onde começou uma pequena igreja. O trabalho se expandiu e novas igrejas foram estabelecidas também nas cidades de Hierápolis e Laodicéia. Ao tomar conhecimento de que seu mentor estava preso, Epafras foi a seu encontro - viajando mais ou menos 1500 a 2000 quilômetros, dependendo da rota.
Em Roma, tomou conhecimento de como estava o apóstolo e o informou de como a igreja crescia e se fortalecia, mas também enfrentava dificuldades como o surgimento de uma perigosa heresia que distorcia o evangelho e que ficou conhecida historicamente como heresia de Colossos.
A carta escrita por Paulo apresenta, assim, os seguintes propósitos:
- Advertir os colossenses contra a recaída na sua condição anterior pecaminosa e contra as “novas soluções” que surgiam e desvirtuavam o Evangelho verdadeiro ao não reconhecer Jesus Cristo como o completo e Todo-suficiente Salvador. Cl 1.21,23;3.5-11 e Cl 2.
- Atrair a atenção dos destinatários para “o Filho do amor de Deus” de forma a confiar Nele, amá-Lo e adorá-Lo, reconhecendo que Ele é a imagem do Deus invisível, o Herdeiro de todas as coisas e o Cabeça da Igreja. Cl 1.13-18;2-8,9.
- Confirmar e realçar o valor de Epafras que lutava em oração e se preocupava com a Igreja. Cl 1.7;4.12,13.
- Enfatizar a virtude do perdão e da bondade, bem como na importância do amor e ternura nas relações sociais. Cl 3.12-13 e 3.18-4.1 (contrastar com carta a Filemon e Efésios 5.22-6.4).
P: O que era a heresia de Colossos?
R: Apesar de poder ser reconstituída através da carta paulina e de outras fontes literárias e históricas, a heresia de Colossos permanece um mistério ainda hoje. É apontada como uma forma primitiva de agnosticismo, ou seja, alegava apresentar um conhecimento secreto e misterioso a respeito de Deus para poucos privilegiados. Nós podemos caracterizar a heresia através dos seguintes pontos:
- Falsa filosofia (Cl 2.8,18): negava a preeminência e suficiência de Cristo, afirmando ter descoberto coisas além das reveladas aos apóstolos através de sonhos e visões.
- Cerimonialismo judaico (Cl 2.11,16,17;3.1): valorizava aspectos da lei e rituais judaicos como circuncisão física, regulamentação alimentar e observância de datas e dias especiais.
- Adoração de anjos (Cl 1.16; 2.15,18).
- Ascetismo (Cl 2:20-23): controle impiedoso do corpo que ultrapassava os regimentos judaicos.
- Dualismo: ideia concebida por Platão, na qual as pessoas viviam em dois compartimentos: o material (e, portanto, inferior) e o espiritual (superior, pois era onde ficavam as realidades espirituais).
Observa-se então que a heresia colossense apresenta aspectos sincréticos do judaísmo, cristianismo, paganismo, filosofia grega e gnosticismo. Há ainda uma mescla de conceitos, como espíritos territoriais, seres celestiais e astrologia – que em tal pensamento, controlavam o destino do homem, sendo necessário a adoração de tais entidades para vencer sua influência.
P: O que devo ter em mente ao ler epístolas no Novo Testamento (não só Colossenses)?
R: Duas coisas: a natureza ocasional das cartas e suas aplicações práticas. Cada carta foi escrita devido a uma ocasião geradora (ver o propósito da carta) e assim muitas vezes temos as respostas sem saber necessariamente as perguntas. É como escutar alguém conversando ao telefone e tentar descobrir quem está do outro lado e o que esta pessoa invisível está dizendo. Em muitos casos, entretanto, é importante para nós tentar escutar “o outro lado”, a fim de sabermos o que é que produziu a resposta encontrada na passagem que estamos estudando. Ou seja, através das respostas e do contexto histórico podemos induzir as perguntas e seus significados.
Outra coisa importante de se observar é que estamos lendo uma carta e não um tratado ou resumo teológico. Há sim muita teologia subentendida, mas devemos ter em mente de que se trata de uma teologia aplicada a necessidades específicas. Por isso é muito útil buscar conhecer o contexto em que a epístola foi escrita. Se possível, tenha em mãos dicionários e/ou comentários bíblicos.
Uma recomendação importante: busque ler a carta inteira de uma vez só, assim você terá uma visão panorâmica antes de meditar em termos e significados. Antes de tudo, porém, busque em oração sabedoria do Espírito Santo para entender e aplicar a sua vida aquilo que está na Palavra do Senhor.
P. Qual a importância do da leitura e estudo do livro de Colossenses para minha vida e para a Igreja?
R: Colossenses fala da pessoa de Cristo e de sua obra mais que qualquer outro livro do Novo Testamento, nos apresentando uma reflexão e visão panorâmica de Sua obra e divindade. Aqui reconhecemos a Cristo como: (a) o Arquiteto, edificador e sustentador da Igreja, (b) o Cabeça de todas as coisas, Suficiente e Único Salvador, (c) a Imagem do Deus invisível, encarnando toda a plenitude divina, (d) Fonte de vida, alegria e paz ao crente, (e) o Recompensador daqueles que se empenham em ser uma bênção aos outros, e, (f) nossa “Esperança e glória”, sempre presente. Nas palavras de Augustus Nicodemus: “Vivemos uma época em que, mais do que nunca, é de uma importância indizível a Igreja compreender Jesus e os atos que realizou. A proliferação de seitas dentro do cristianismo, o crescimento do misticismo e de uma pretensa espiritualidade nas igrejas consideradas evangélicas e o enrijecimento organizacional de várias denominações históricas demandam uma nova apreciação da obra e da pessoa de Jesus, como pressuposto essencial de uma renovação ou reavivamento espiritual e teológico.”
A história acontece em ciclos, e os mesmos erros cometidos no passado continuam a assombrar as igrejas em pleno século 21. Legalismo, misticismo, ascetismo e gnosticismo ainda sondam a igreja. Portanto precisamos (re)conhecer e combater os erros que muitas vezes surgem como novidade. Pois, como Paulo tão bem defendia, o evangelho modificado, por menor que seja a modificação, deixa de ser Evangelho. Nosso conhecimento não pode se firmar longe da palavra.
Por fim, Paulo nos apresenta em sua carta conselhos práticos para uma vida cristã, fala de nossa união com Cristo e os efeitos que dela decorrem. Podemos aprender como nos revestir das virtudes de Deus e a viver de maneira que O agrade em nossa geração.
Referências:
Augustus NICODEMUS. A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Gordon D. FEE; Douglas STUART. Entendes o que lês? Editora Vida Nova, 2011.
William HENDRIKSEN. 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

Muito legal.
ResponderExcluirParabéns, muito bem resumido, Deus abençoe
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