Texto: “Ora, muito me regozijei no Senhor por finalmente reviver a
vossa lembrança de mim; pois já vos tínheis lembrado, mas não tínheis tido
oportunidade. Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a
contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância;
em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura,
como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso
todas as coisas em Cristo que me fortalece. Todavia fizestes bem em tomar parte
na minha aflição. E bem sabeis também, ó filipenses, que, no princípio do
evangelho, quando parti da macedônia, nenhuma igreja comunicou comigo com
respeito a dar e a receber, senão vós somente; Porque também uma e outra vez me
mandastes o necessário a tessalônica. Não que procure dádivas, mas procuro o
fruto que cresça para a vossa conta. Mas bastante tenho recebido, e tenho
abundância. Cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que da vossa parte
me foi enviado, como cheiro de suavidade e sacrifício agradável e aprazível a
Deus. O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas
necessidades em glória, por Cristo Jesus. Ora, a nosso Deus e Pai seja dada
glória para todo o sempre. Amém. Saudai a todos os santos em Cristo Jesus. Os
irmãos que estão comigo vos saúdam. Todos os santos vos saúdam, mas
principalmente os que são da casa de César. A graça de nosso Senhor Jesus
Cristo seja com vós todos. Amém.” Filipenses
4:10-23
Um dado
preocupante. Recentemente olhando algumas estatísticas, descobri que a cada 100
reais recebidos em dízimos e ofertas, cerca de 5 vão para missões, e destes 5,
somente cinco centavos vão para investimentos em países pouco evangelizados.
Não há toa um amigo missionário compartilhou uma piada:
Conseguir aquele horário na TV: R$ 4
milhões.
Adquirir um sitio para lazer: R$ 500.000
Construção de um grande templo: R$ 10
milhões
Mas para enviar um missionário ao campo: Não
tem dinheiro!
Seria engraçada, caso não fosse
triste. Gastam-se mais atualmente no Brasil no embelezamento de templos do que
cumprindo da Grande Comissão. E isso se reflete em todas as áreas da vida. Cada
vez mais fluem na igreja pessoas que procuram sua felicidade pessoal, a
despeito do que isso possa significar para outras pessoas ou mesmo para Deus. Cuidado
com o pobre, o órfão e a viúva? Coisa de filantropo ou comunista (aparentemente
o cuidado com a criação passa a seguir uma postura política na mente de
alguns). É uma triste distorção daquilo que se praticava na Igreja primitiva,
onde não se havia necessidades entre seus membros, pois, com graça e alegria, a
união do corpo socorria naquilo que faltava.
Paulo termina a carta aos
filipenses agradecendo a lembrança e a oferta enviada pela igreja. Aparentemente
houve outras tentativas de dar suporte ao apóstolo e que não foram bem sucedidas,
mas são relembradas aqui outras ocasiões em que Paulo foi socorrido. Chama-se
atenção que Paulo não tinha costume de pedir ofertas ou sustento, pois buscava
ele mesmo sustento para si e outros através de seu trabalho de fazer tendas. Seu
objetivo era nunca ser um peso para a igreja. Preso, não tinha como trabalhar e
lhe dar com as necessidades de alimento, roupas, etc. Mas observe que, não
importando as circunstâncias, ele chama atenção do ato da igreja e não para si.
Paulo dependia de Deus, aquilo que ensinava era aquilo que vivia, e aprendeu o
segredo do contentamento, confiar em Deus em todo e qualquer momento. Em um
paralelismo poético e dinâmico, Ralph Martin (1985) organiza assim suas
colocações:
a) Tanto sei estar humilhado
b) Como também ser honrado;
c) De tudo e em todas as circunstâncias já tenho experiência,
a) Tanto na fartura, como na fome;
b) Assim de abundância, como de escassez;
c) Tudo posso naquele que me fortalece.
b) Como também ser honrado;
c) De tudo e em todas as circunstâncias já tenho experiência,
a) Tanto na fartura, como na fome;
b) Assim de abundância, como de escassez;
c) Tudo posso naquele que me fortalece.
Diferente dos filósofos e estoicos da época, o segredo de Paulo para se
adaptar a toda situação não era forças que tirava de si mesmo, mas aquele que o
fortalecia, Deus. Tudo quer dizer
realmente “todas as coisas”, posso fala
de suportar, aguentar; naquele que me fortalece,
fala de dunamis, do poder, do milagre
que vem de Deus. Perceba que o verbo está no presente. A graça e confiança no
agir de Deus era algo cotidiano. Apesar disso, Paulo se alegria com as igrejas
na Grécia, e principalmente com Filipos, pois foi a única a se interessar no
dar e receber.
Costumamos ouvir as palavras de Jesus de que mais bem aventurado é dar
do que receber (At 20.25), mas raramente agimos com isso em mente. Mesmo quando
presenteamos, esperamos algo em troca, mesmo abastados, deixamos de socorrer o
necessitado (Lc 12.20,21 e 1 Jo 3.17). Precisamos aprender com a Igreja de
filipenses a ser bons despenseiros das dádivas recebidas. Muitos estudiosos
acreditam que a igreja em Filipos passava por problemas, incluído financeiros,
o que não os impediu de suprir as necessidades do apóstolo a ponto de este
declarar que recebeu em abundância.
Chama-se atenção para o
uso do temo reviver, v. 10, que
relembra uma planta que renasce na primavera, trazendo beleza, perfume e
alegria; e dos termos bancários utilizados por Paulo nos versos seguintes –
todas as bênçãos seriam para credito da igreja, e aquilo seria recebido por Deus
como sacrifício agradável. Sheed
(2005) aponta oportunamente que “Ofertas de bens, impulsionadas pela graça de Deus
(2Co 8.1) e compaixão pelos irmãos necessitados tributam graças a Deus (2Co
9.11) e acrescentam “glória ao próprio Senhor” (2Co 8.19).” Lembre que Deus ama
ao que dá com alegria (2 Co 9.7)! Diante disso, Paulo abençoa a Igreja com uma
promessa, condicional, para os doadores. Uma promessa do que Deus faz em
retribuição pelo gesto de entrega.
Meu Deus destaca a pessoalidade
do Senhor. Paulo sabia por experiência própria que Deus lhe ajudava em todas as
necessidades. Suprirá está na forma
ativa, lembremos que Deus é aquele que sustem o universo (Sl 78.20 e 2Co 9.10).
Necessidades é um tempo a ser pensado
e repensado em um mundo em que se inventam coisas descartáveis e lhes nomeiam
como essenciais. Como saber o que é o necessário? Israel Belo de Azevedo (2014)
responde bem:
Deus nos supre as necessidades que ele
considera como necessidades. Nós confundimos desejos com necessidades; ele,
não. Deus então, supre as necessidades que passam pelo seu crivo. Ele sabe do
que precisamos, sem o qual não podemos viver e nos supre. Segundo aprendemos na
Bíblia, Os leões podem passar necessidade
e fome, mas os que buscam o Senhor de nada têm falta (Sl 34.10). Por isso, aproximamo-nos do trono da graça com toda a
confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude
no momento de necessidade (Hb 4.16).
E
Deus nos supre ricamente de acordo com suas riquezas em glória. Sheed e Azevedo apresentam exemplos semelhantes para entendermos
isso. Imagine que você pede uma doação a um homem muito rico, riquíssimo, e ele
lhe entrega somente dois reais. Este
homem deu DAS suas riquezas, não DE ACORDO com suas riquezas. Assim, DE ACORDO
com suas riquezas é uma doação generosa. Deus não dá esmola, mas nos envia
riquezas incomparáveis (Ef 1.3) sejam em sabedoria, bondade, graça ou da glória
de Cristo, ou seja, da plenitude da sua divindade. Quem tem Cristo tem Tudo.
Não só isso, esse é o Deus que realiza muito mais do que podemos pedir ou
imaginar (Ef. 3.20).
A carta termina então com saudações, graça e
glória (WRIGHT, 2014). Saudações à igreja, aos santos em Cristo Jesus. Graça do
Amor e rei Jesus, disponível a todos. E Glória somente ao único Deus e Pai,
hoje e para sempre. Que possamos guardar essas palavras, e viver na alegria e
paz de nosso Senhor. Amém.
Referências:
AZEVEDO, Israel, Belo de.
Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom
comentadas tema por tema. Editora
Hagnos, 2014.
MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário
(Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom. Editora Vida
Nova, 2005.
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians,
Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.
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