“Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.” (Colossenses 1.15-20 - ARA)
As palavras entusiasmadas de Dostoievsky após sua conversão nos mostram o quão magnética a figura de Cristo pode ser: “Creio que não há nada mais belo, mais perfeito que Cristo (...) Diante disso, se alguém provasse que Cristo estava fora da verdade e que a verdade estava fora de Cristo, eu preferiria permanecer com Cristo a ficar com a verdade.” Por isso, ao invés de começar sua carta com refutações e apologética ao ensino que falsos mestres estavam propagando em Colossos, Paulo vai por outro caminho, apresentando de início exatamente a verdade: o próprio Deus revelado em Cristo Jesus, o Primogênito, o Cabeça da Igreja, Aquele que tem toda a autoridade e primazia, em que tudo começa e se sustém. Há um debate entre estudiosos quanto a esta seção da carta paulina, sobre ser um poema, canção ou simplesmente um tratado oral, que pode ou não ser de autoria do apóstolo. Certo é que os versículos 15-20 apresentam uma unidade poética marcada pelo paralelismo entre a ação, presença e preeminência de Cristo na criação e na redenção:
Na criação (vs. 15-17)
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Na redenção (vr. 18-20)
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15. Que é a imagem do Deus invisível,
o primogênito de toda a criação.
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18. Ele é o cabeça do corpo, a igreja;
Que é o princípio, o primogênito dos mortos,
Que em todas as coisas ele possa ter a preeminência,
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16. Pois, por meio dele foram criadas todas as coisas
Nos céus e na terra,
As visíveis e invisíveis,
Sejam tronos ou domínios ou principados ou autoridades,
Todas as coisas foram criadas
Por meio dele e com vistas a ele;
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19. Pois nele, ele [Deus] agradou-se em habitar toda a plenitude,
20. E por meio dele reconciliar consigo todas as coisas,
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17. E ele é antes de tudo,
E todas as coisas se firmam nele.
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20. Havendo feito a paz pelo sangue de sua cruz,
Por meio dele, sejam as coisas da terra
Ou as coisas nos céus.
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Podemos destacar três aspectos neste poema. Primeiro, ao olharmos para Jesus descobrimos quem Deus é. Ninguém jamais viu a Deus, mas quando um dos discípulos pede “mostra-nos o Pai” Jesus aponta para si: “Faz tanto tempo que estou com vocês, Filipe, e você ainda não me conhece? Quem me vê vê também o Pai.” (João 14.9). Não é à toa que Paulo destaca isso, Jesus é a imagem exata do Pai. E esse conceito trata-se de mais do que um simples reflexo. A palavra grega traduzida por imagem (eikon) refere-se tanto a imagem refletida quando a réplica perfeita. Nas palavras de Russell Shedd: "Quem quer saber como Deus é, considere atentamente a figura de Cristo: Seu amor e Sua indignação, Sua misericórdia e Sua denúncia dos hipócritas, Sua humanidade e majestade, Sua atitude de servo e Seu senhorio."
Segundo, Jesus tem a primazia sobre todas as coisas e as sustenta. Primogênito sobre toda a criação não quer dizer que ele foi o primeiro a ser criado. A Bíblia é clara em dizer que antes de tudo ele já existia, pois é Deus (João 1.1-3). O primogênito era aquele que tinha direito a tudo, que herdava todas as coisas e dominava sobre tudo, e é isso que Paulo quer dizer. Antes de qualquer coisa ser criada, Jesus já existia. Ele transcende a todas as coisas, Ele criou todas as coisas e todas as coisas subsistem Nele, dependem Dele. Por isso Ele tem todos os direitos sobre a criação e é o Cabeça da Igreja, ou seja, Seu comandante e sustentador – o que demonstra também Sua ligação com a Igreja.
Por fim, Jesus é o modelo de uma nova humanidade oferecida através do Evangelho. Andávamos alienados de Deus, dos outros homens e também do restante da criação. Cristo, através de Sua obra na cruz, conseguiu a paz e reconciliação de todas as coisas. Primeiro reconciliou o homem com Deus; segundo, reconciliou os homens; e enfim, a própria criação foi reconciliada Nele, pois longe de Deus não pode haver paz. Jesus a conquistou por seu sangue. Isso porque somente em Cristo habita toda a plenitude (pleroma) de Deus. Só Ele tem poder de reconciliar todas as coisas e restaurar nossa verdadeira humanidade.
Há muito neste pequeno poema que poderia ser explorado. Vale a pena ler e carregar seus versos como a Palavra viva, pois nos enche de gratidão ao reconhecer o Deus que nós temos, que nos entusiasma, que é perfeito, verdadeiro e belo. Assim como a Igreja colossense, precisamos nos aprofundar mais no conhecer e amar a Cristo.
Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Israel Belo de AZEVEDO; Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas tema por tema. Editora Hagnos, 2014.
Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
Tom WRIGHT; Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.
William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

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