“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar. Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos.” (Colossenses 3.5-11 - ARA)
Após exortar a igreja a buscar as coisas do alto e pensar nas coisas celestiais - resultado não de ação humana, mas da morte e ressurreição em Cristo – Paulo apresenta as implicações práticas da união com Cristo. “Portanto, fazei morrer as coisas pecaminosas e terrenas que estão dentro de vocês” diz a Nova Versão Transformadora. Aqui há um jogo de palavras: no verso 3.3 ele diz “vocês morreram”, usando a palavra grega apethanete (morrer, perecer), enquanto no versículo 5 diz “façam morrer”, usando a palavra nekrosate (de onde vem a idéia de necrosar, decompor, fazer morrer). As duas colocações podem, à primeira vista, parecer uma contradição, mas apesar do foco cristão ser o céu, sua natureza terrena carrega a fragilidade e corrupção adâmica. Há uma luta entre carne (no a natureza humana caída, Rm 7 e 8) e o Espírito, de forma que a santificação precisa ser progressiva (2 Co 3.18; Fp 1.6, 3.12,13).
As inclinações carnais aparecem em duas categorias, vícios e pecados coletivos (ou de discurso). Nos vícios temos: prostituição, paixão lasciva, desejo maligno e avareza, identificada com idolatria. A palavra usada aqui para prostituição, porneian, se refere a qualquer pecado de natureza sexual, e de fato as palavras do grego para impureza, prostituição e paixão são parecidas. Elas indicam tudo aquilo que foge da dinâmica estipulada pelo Senhor, ou seja, o sexo dentro de um casamento heterossexual. A natureza terrena busca somente se satisfazer à sua maneira, não importando que para tudo há um tempo, modo e circunstância. O desejo em si, por exemplo, não é algo mau, por isso Paulo usa “maus desejos” ou “desejos malignos” ou até mesmo cobiça. A avareza se refere a ideia de tirar vantagem, muitas vezes iludindo ou prejudicando alguém. O crente que ama ao dinheiro busca juntar tesouros terrestres e não celestiais, colocando seu coração no lugar errado. Perceba que o resultado disso é a ira de Deus, Sua justa reação diante do pecado ao castigar a desobediência – e os cristãos não estão isentos disso.
A moralidade apresentada por Paulo é diferente de qualquer religião. Enquanto normalmente as religiões dizem “Faça isso e será salvo”, o cristianismo diz “Você já está salvo, portanto faça isso”, ou seja, temos imperativos baseados no indicativo. Somente no poder de Cristo que o homem pode vencer os desejos carnais. Cristo derrubou o domínio do pecado, “enfraqueceu o seu poder e matou suas raízes, de maneira que não possa dar o fruto da morte eterna no crente” (Kris Lundgaard). Por isso podemos obedecer. Como “já fostes crucificados com Cristo”, podem agora fazer “morrer a vossa natureza terrena”.
Na segunda categoria de ações que deveriam ficar no passado temos: ira, indignação/raiva, maldade, maledicência, linguagem obscena e mentira. Perceba que Paulo se preocupa tanto com os pecados sexuais quanto de discurso, pois ambos causam sérios danos tanto aos que cometem quando aos atingidos, sendo perigosos para uma comunidade – e bom seria se a igreja moderna balanceasse isso corretamente. A ira e indignação (ou ódio) identificados aqui são diferentes da ira divina, sendo identificados como irritação violenta e breve, como fogo de palha. A maldade significa criar problemas, uma atitude culpável de iniquidade. Maledicência se encontra na mesma linha de pensamento; ser maledicente é ter a intenção de caluniar, abusar e destruir o valor de uma pessoa com palavras. A mentira, por fim, ressalta o que já foi listado. O que mente se identifica com o diabo, o pai da mentira (João 8.44).
A ordem aqui é nos despojarmos de tudo isso para vivermos uma vida de pureza. Devemos deixar o velho homem, que se identifica com Adão, para nos revestir do novo homem, que se identifica com Cristo. Conforme aponta Shedd, “um costume oriental da antiguidade pode oferecer-nos um pano de fundo para essa figura. Quando um alto oficial do governo era deposto, era obrigado a despojar-se das vestimentas relativas à sua posição.” Uma visão cotidiana poderia ser a de alguém que chega em casa cansado do trabalho, toma um banho e coloca roupas confortáveis e perfumadas. Aqueles que nasceram de novo trocam seus trapos de imundícia (Is 64.6), por vestes de louvor. Esta nova condição nos coloca em processo de transformação diária à imagem do nosso Salvador. Longe de ser algo exclusivo de um grupo seleto, mas alcança pessoas de todas as etnias e religiões (nem judeu, nem grego), de todas as sociedades (nem escravo, nem livre), de todos os sexos (nem homem, nem mulher) e todas as culturas (bárbaro ou cita, a mais violenta e baixa classe dos bárbaros). Cristo é tudo em todos!
O que Paulo deseja aqui é que a Igreja se aproprie de sua nova identidade em Cristo, que as pessoas descubram o sentido de serem genuinamente humanas: que possam claramente entender as implicações de um comportamento sexual ou do que parece ser uma simples conversa. Isso exige pensar corretamente e apoiado na verdade, uma tarefa nem sempre fácil, mas no qual podemos contar sempre com nosso Senhor.
Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Kris LUNDGAARD; O Mal que habita em mim. Editora Cultura Cristã, 2014.
Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
Tom WRIGHT. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.
William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemon (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

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