“Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura. Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato diante do Senhor. Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desanimados. Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas. Senhores, tratai os servos com justiça e com equidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu.” (Colossenses 3.18-4.1 - ARA)
Relacionamentos nem sempre são fáceis, mas são bons indicadores de como anda nossa vida com Deus. Isso se deve pelo fato de que o amor de Cristo habita em nós e nos reconcilia com Deus e com próximo. Se no mundo moderno a religiosidade deve se restringir ao particular, para o cristão abrange todos os aspectos de sua vida, seja casamento, seja paternidade, seja no mundo do trabalho. Alguns aspectos deste trecho de colossenses aspectos devem ser evidenciados:
- Apesar do mundo recusar autoridades e o próprio termo “submissão”, esta é uma realidade bíblica. Não podemos escolher o que nos agrada ou não na Bíblia, mas obedecer.
- É de extrema valia analisar este trecho comparado com Efésios 5.21-33 e 6.1-9, onde podemos ter complementos ao que está sendo dito.
- A submissão ou obediência não pressupõe superioridade ou inferioridade das partes, lembre-se que que em Cristo “não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre”.
- O que se diferencia aqui são os papéis, pais e filhos, esposa e esposo, servos e mestres. Ao marido, foi definido papel de liderança, a esposa de auxiliadora, os filhos devem confiar na orientação dos pais, etc.
- Todo o contexto aqui está baseado no amor e não é qualquer amor, mas amor ágape. Se amamos não vamos maltratar, escravizar, irritar, etc., caso contrário não é amor e não está firmado em Deus.
- Apesar do “tudo obedecei“ de Paulo, está claro que se determinada ordenança vai contra a Palavra de Deus, convém obedecer antes a Deus que aos homens (At 5.29), ou seja, a submissão não é absoluta.
- Há um caráter recíproco nestas admoestações. Ou seja: um dever não ocorre às expensas do outro, há um equilíbrio. Por exemplo, os filhos devem obedecer aos pais, mas os pais devem criar uma atmosfera de amor e confiança em que a obediência seja algo fácil e natural.
- Tudo é feito através e para Cristo, para o louvor de Deus. Não se pode obedecer da boca para fora ou buscando agradar aos homens, mas buscando fazer tudo para a glória de Deus. Ao mesmo tempo, somente em Cristo podemos obedecer e cumprir as recomendações feitas aqui.
“Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. Maridos, amai vossa esposa e não a trateis com amargura.” Em um casamento, um cônjuge se submete ao outro, mas o papel de liderança foi dado por Deus ao homem. Isso, de forma alguma, significa que o marido não vai ouvir sua esposa e considerar sua opinião. A atitude do esposo deve ser amável, buscando seu bem e se dedicando a ela assim como Cristo se entregou pela Igreja. Não deve tratá-la com aspereza, ou seja, de forma maldosa, grosseira, humilhando ou ignorando. Neste contexto, não fica difícil para a mulher amar e se submeter ao marido. O acréscimo “como convém no Senhor” nos lembra de que, se algo, na iluminação recebida em Cristo, indicar que estão indo contra a palavra de Deus, a mulher deve apresentar reprovação.
“Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato diante do Senhor. Pais, não irriteis os vossos filhos, para que não fiquem desanimados.” O exemplo de relacionamento parental está no próprio Cristo com o Pai. Quando Paulo diz que os filhos devem obedecer “em tudo”, pressupõe que seus pais sejam cristãos e estejam dando a orientação correta, mas isso também não isenta a rebelião quando os pais não são cristãos. Em contrapartida, os pais não devem irritar os filhos a ponto de perderem a motivação. Muitos caem em extremos: ou ficam receosos e nunca disciplinam os filhos, criando verdadeiros criminosos, ou possuem dura cerviz, de forma a gerar apatia e revolta na prole. Disciplina deve ser com amor e perdão (Hb 12.4-12).
Um aspecto interessante é que Paulo dedica a maior parte das recomendações sociais aos escravos/servos e mestres. Isso pode ter acontecido por duas razões: (1) haviam muitos escravos convertidos no império romano e (2) junto a carta aos Colossenses estava sendo encaminhada uma carta a Filemom, do qual Paulo fala sobre o escravo Onésimo que havia fugido de seu dono e acabou se convertendo ao encontrar o apóstolo e ouvir a mensagem de Salvação.
O tema escravidão na Bíblia não será tratado aqui, mas vale a observação de que as recomendações bíblicas estavam muito à frente de seu tempo e influenciaram muitos cristãos a lutar contra tal prática. Em todo caso, é importante para os nossos dias, em termos trabalhistas, a recomendação para trabalhar não buscando aprovação humana, mas de Deus. Todo trabalho realizado pelo homem, se torna assim trabalho para glorificar a Deus. É responsabilidade do cristão colocar suas vocações, serviço e cumprimentos de responsabilidades no altar de Deus. Nas palavras de Nicodemus: “ele está dizendo que o cristão pode servir ao Senhor mesmo estando encarcerado, em um subemprego ou em qualquer realidade que se encontre.”
O alerta “pois, aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita” serve tanto para os escravos quanto aos mestres, pois o Deus a Quem servimos há de recompensar cada um por seus atos. Justiça com equidade é algo enfatizado para os senhores e patrões e quer dizer: “respeitar integralmente os méritos do escravo ou empregado, que tem garantido pelo Criador, o direito de receber uma justa porcentagem do fruto do seu trabalho (veja 1Co 9.7-9; 1Tm 5.18)” (Shedd). O cristão não pode viver algo na Igreja e algo diferente fora dela. Ou ele é cristão ou não é. Ou Cristo afeta todas as áreas de sua vida, ou a pessoa se admite hipócrita. Afinal, não existem meios termos no discipulado cristão.
Referências:
Augustus NICODEMUS; A supremacia e a suficiência de Cristo – A mensagem de Colossenses para a Igreja de hoje. Editora Vida Nova, 2013.
Russell P. SHEDD; Dewey M. MULHOLLAND; Epístolas da prisão – Uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
William HENDRIKSEN; 1 e 2 Tessalonicenses, Colossenses e Filemom (Comentário do Novo Testamento). Editora Cultura Cristã, 2007.

Nenhum comentário:
Postar um comentário