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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dia 11 - Pais e filhos, senhores e servos



 Efésios 6.1-9
Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa, para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra. E vós, pais, não provoqueis a ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor. Vós, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus;   servindo de boa vontade como ao Senhor e não como aos homens, sabendo que cada um receberá do Senhor todo o bem que fizer, seja servo, seja livre. E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, sabendo também que o Senhor deles e vosso está no céu e que para com ele não há acepção de pessoas.


                Continuando a analisar os relacionamentos domésticos sob o prima da nova sociedade moldada pelo Espírito, percebemos a centralidade de Cristo em todas as coisas. Cada exemplificação de Paulo é um convite e seguir os passos de Cristo e se apropriar desta nova vida, é a teologia em pratica. Aqui não vamos analisar mais profundamente a questão histórica sobre pais e filhos ou mesmo sobre o grande problema da escravidão no velho ou no novo testamento – que ainda hoje assola diversos países e deve, portanto, ser combatido. Vamos buscar aspectos práticos e extrair o que Paulo tem para nós hoje.

                Sabendo que uma sociedade bem estruturada começa em suas micro relações, esposo-esposa, pais-filhos, o apóstolo Paulo já faz uma diferenciação. Enquanto as mulheres devem submeter aos maridos – que já aprendemos que significa entrega voluntaria de si mesma aquele que a ama - para os filhos o termo é mais forte: obedecer. São três os motivos apresentados; primeiro “porque isto é justo”, ou seja, é algo que faz parte da lei natural de que Deus escreveu em nossos corações, e isso é algo praticamente reconhecido em todas as culturas. Segundo, isto é reconhecido pela Lei de Deus “Honra teu pai e a tua mãe” (Êxodo 20.12 e 5.16). Costumamos dividir os 10 mandamos entre 4 relativos a Deus e 6 relativos aos nossos relacionamentos com outras pessoas, mas os judeus nunca viram assim. Dividiam as leis em duas tábuas por igual, pois consideravam a honra aos pais no âmbito do nosso dever com Deus – pois os pais representam Deus diante de nós e devem agir como intermediários de sua autoridade e bondade. Por fim é nos apresentado o terceiro motivo: este é o primeiro mandamento com promessa, ou seja, “para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra”.  E como coloca John Stott, isso é uma consequência lógica, afinal “uma sociedade saudável é inconcebível sem uma sólida vida familiar”. 

                Perceba que poderá haver atritos, principalmente se os pais não forem cristãos, mas somos chamados como pacificadores, e devemos evitar conflitos, desde que não se interponham com o Senhor (Mt 10.34-39). 

Entende-se  também que a obediência é algo da infância/juventude, seguido por honrar os pais na vida adulta, e neste aspecto muitas vezes somos falhos. Quantos idosos não estão abandonados pelos filhos, a mercê de adversas circunstâncias, por razões egoístas? Creio que isso não pode ser reconciliado com o quinto mandamento e exige reflexão. Perceba também que a obediência de que Paulo fala é no Senhor, ou seja, “colocam sobre os filhos a responsabilidade de obedecer aos pais por causa do seu próprio relacionamento com o Senhor Jesus Cristo”. 

                Qual o dever dos pais em tudo isso? Assim como o marido edifica a esposa, os pais devem edificar, amar, corrigir quando necessário, e guiar os filhos para que atinjam plenitude do que são em Cristo.  É dito para não provocar a ira e “sabemos mesmo é que os pais podem facilmente abusar da autoridade, ou, por fazerem exigências irritantes ou absurdas que não levam em conta a inexperiência, ou por severidade e crueldade num extremo, ou por favoritismo e agrados exagerados no outro, ou por humilhar e oprimir os filhos, ou por fazer uso de duas armas vingativas: a ironia e a ridicularizarão”. Mesmo a disciplina, “doutrina e admoestação”, nunca deve ser arbitraria e em momento de raiva, para não causar desanimo. Lembremos: o objetivo na criação dos filhos é ajuda-los a desenvolver seu pleno potencial, nem abatendo e nem superprotegendo. Muitas vezes o que os pais chamam de rebeldia é somente a necessidade de desenvolver independência e aprender a exercitar sua própria autoridade. Por isso devemos ouvir o conselho do Dr. Martin Lloyd Jones: “Ao disciplinar uma criança, você deve ter primeiramente controlado a si mesmo... Que direito tem você de dizer ao seu filho que ele precisa de disciplina quando você obviamente está precisando dela também? O autocontrole, o controle do seu próprio gênio, é uma condição essencial no controle dos outros”. Lembre ainda que os filhos são do Senhor, e a principal função ao uso da autoridade é que cheguem a conhecer ao Senhor e lhe obedecer. 

                ***


                Os conselhos se estendem então a relação chefe e empregado. Não é difícil fazer as conexões devidas. Nosso objetivo é colocar Cristo em nossa visão. Tudo o que fizermos deve ser para Ele e deve ser com excelência. Não depende de um chefe chato ou cheio de cobranças. É-nos lembrado que nosso dever é de agir em todas as coisas como que para Deus, e de todo coração, não buscando paparicar e agradar os homens, mas crendo que nossa maior herança é a aprovação do Senhor e que “cada um receberá do Senhor todo o bem que fizer, seja servo, seja livre”. Precisamos colocar isto em mente porque é fácil cair no pseudoateismo – viver como se não houvesse Deus apesar de crer nele. 

                Aos chefes/senhores, Paulo observa que são iguais aos servos/escravos (algo já distinto da época) e diante de Deus, de forma que o relacionamento deve ser em justiça e em fraternidade (não somos mais estranhos, mas irmãos em Cristo). É fácil cobrar os deveres dos outros, Paulo conclama a cumprirmos os nossos. 

                Às vezes, quando tenho muitas atividades na faculdade, acontece de chegar atrasado ao trabalho. Minha chefia sabe os motivos e nunca fez cobranças em meus horários, mas sempre que chego atrasado, saio mais tarde também (o serviço está sempre lá, independente do horário). Outra pessoa que trabalhava comigo perguntou por que estava saindo tão tarde certo dia e expliquei a situação. Ela disse que bom seria se todos os empregados tivessem essa consciência, afinal estão sendo pagos e o bem da empresa é o seu também. No mundo de hoje, ser pontual, cumprir horário, não inventar desculpas e etc. parece coisa de fracassados, enquanto os espertos aproveitam toda oportunidade para burlar o sistema, mas lembrem de que muito mais que um chefe terreno, temos que responder a um Deus celestial que pede que sejamos luz em todo relacionamento – familiar, matrimonial ou empregatício.   

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John Stott. A Mensagem de Efésios – A nova Sociedade de Deus, ABU editora.

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