Texto: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas
prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos,
quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que,
esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante
de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo
Jesus. Por isso todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se
sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará. Mas, naquilo
a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo. Sede
também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes
em nós, pelos que assim andam. Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos
disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, Cujo
fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles,
que só pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa cidade está nos céus, de onde
também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, Que transformará o nosso
corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz
poder de sujeitar também a si todas as coisas.” Filipenses 3:12-21
A Bíblia
possui peculiaridades que podem a principio parecer paradoxais. Por exemplo, é
um livro que conta como Deus agiu e falou para o povo em uma determinada época,
mas cuja mensagem é atemporal. Nestas paginas há profecias especificas para
determinados momentos de Israel, mas que também vislumbravam um futuro mais
longínquo. Da mesma forma, há a tensão
entre o agora e o ainda não. Embora seja anunciado a chegada do Reino de Deus
pelo próprio Jesus, esse reino ainda não está completo – com glória e poder,
mas dentro de nós. Nossa salvação foi conquistada por Cristo na Cruz – mas será
concretizada em seu retorno triunfal. Assim também é com a nossa perfeição em
Cristo:
Não há
contradição nesta realidade, mas tensão. A constância de Cristo (2Ts 3.5) opera
em nós quando nos lembramos de que não alcançamos ainda a santidade, na
dimensão atual, mas, assim mesmo, vamos prosseguindo para alcançar a perfeição
para a qual fomos alcançados por Jesus (Fp. 3.12-13). (AZEVEDO, 2014)
Paulo chama
atenção de que, enquanto estivermos nesta terra, enquanto não vier aquele que é
perfeito e que restaurará todas as coisas, nós ainda caminhamos para um alvo, a
soberana vocação, o chamado de Cristo. Muitos poderiam alegar que eram
perfeitos, e de fato já se propagava o agnosticismo entre varias congregações. Baseados
na filosofia grega, onde o corpo material era considerado algo ruim e
pervertido, considerando a pureza algo interno e espiritual – como a nós dentro
de uma casca. Assim, os agnósticos seguiam dois caminhos distintos. Uma vez que
a realidade material era má, e o espírito bom, alguns consideravam que não
importava o que se era realizado com o corpo, uma vez iniciado na realidade
espiritual, uma corrente libertina, caminhado rapidamente para as perversões e
prostituição (Ap 2.14,21, Jd 4,7-16). Outra postura estrema era a do ascetismo,
onde, através de ritos e prescrições ou leis, era possível subir a escada da
espiritualidade.
Porém tanto o
antigo, como o novo testamento enxergam o corpo como algo que se identifica estritamente
com você (SHEED, 2005). Não há algo de ruim na criação de Deus, este corpo é
somente o barro do qual Deus sopra o folego de vida (Sl 104.29,30), e foi nesta
casa que Cristo veio habitar, e foi seu corpo que foi oferecido em nosso favor,
e assim devemos nós também oferecer nosso corpo como sacrifício agradável (Rm
12). Ao negarem isso, bem como a Cruz de Cristo, e ao se intitularem perfeitos,
os gnósticos iam na contramão da pregação de Paulo e viviam somente para
agradar ao seu próprio ventre, ou seu próprio umbigo, fazendo de si mesmo seu
próprio deus.
Paulo
recomenda seguir seu exemplo e de muitos outros irmãos como ele e, assim como
um atleta, focar na meta, na linha de chegada. Reiterando o que havia sido dito
nos versos anteriores, Paulo deixa tudo para trás, mesmos as conquistas
adquiridas no caminhar não poderiam ser empecilho para prosseguir e terminar a
jornada. Quantos na igreja pensam já ter alcançado tudo e de que não precisam
de nenhum esforço ou que já alcançaram a perfeição? Outros ainda, ao contemplar
o exemplo de outros homens de Deus, ou irmãos no cotidiano, acham que nunca
chegarão a tal escala de espiritualidade, e preferem viver em uma fé medíocre.
Nenhum, nem outro.
Paulo diz que
devemos olhar e prosseguir para o alvo como um corredor olha para a linha de
chegada. Mais que chegar ao céu, seu objetivo era viver com Cristo em seu novo
corpo. De fato, para ele, a verdadeira maturidade era continuar nos
pressionando para frente, até atingir o alvo e receber o “bem vindo, servo bom
e fiel!”. Ela ainda não havia chegado ao final da carreira, ainda não havia
recebido o premio, então lutaria até chegar lá.
Diante disso,
recomenda aos irmãos que vivam como cidadãos dos céus. Os filipenses eram parte
de uma colônia romana, com todos os direitos de cidadãos, mas deveriam viver
seguindo as regras de outro reino, seriam colônia dos céus nesta terra. Claro
que não somos perfeitos, termos um corpo de humilhação, ou abatido, que muitas
vezes reivindica conforto e segurança e não a morte e o serviço (1Co 9.13).
Mas, em certo paralelismo com Fp. 2.1-11, Cristo nos transformará em seu corpo
glorioso, segundo seu “poder de sujeitar também a si todas as coisas”.
Música: Errando e Aprendendo – Resgate
Referências:
AZEVEDO, Israel, Belo de.
Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom
comentadas tema por tema. Editora
Hagnos, 2014.
MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário
(Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom. Editora Vida
Nova, 2005.
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians,
Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.

Nenhum comentário:
Postar um comentário