Texto: “Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não
apenas em minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em
ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês
tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele. Façam tudo
sem queixas nem discussões, para que venham a tornar-se puros e
irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e
depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo, retendo firmemente
a palavra da vida. Assim, no dia de Cristo eu me orgulharei de não ter corrido
nem me esforçado inutilmente. Contudo, mesmo que eu esteja sendo derramado como
oferta de bebida sobre o serviço que provém da fé que vocês têm, o sacrifício
que oferecem a Deus, estou alegre e me regozijo com todos vocês. Estejam vocês
também alegres, e regozijem-se comigo. Espero no Senhor Jesus enviar-lhes
Timóteo brevemente, para que eu também me sinta animado quando receber notícias
de vocês. Não tenho ninguém como ele, que tenha interesse sincero pelo
bem-estar de vocês, pois todos buscam os seus próprios interesses e não os de
Jesus Cristo. Mas vocês sabem que Timóteo foi aprovado, porque serviu comigo no
trabalho do evangelho como um filho ao lado de seu pai. Portanto, é ele quem
espero enviar, tão logo me certifique da minha situação, confiando no Senhor
que em breve também poderei ir. Contudo, penso que será necessário enviar-lhes
de volta Epafrodito, meu irmão, cooperador e companheiro de lutas, mensageiro
que vocês enviaram para atender às minhas necessidades. Pois ele tem saudade de
todos vocês e está angustiado porque ficaram sabendo que ele esteve doente. De
fato, ficou doente e quase morreu. Mas Deus teve misericórdia dele, e não
somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre
tristeza. Por isso, logo o enviarei, para que, quando o virem novamente, fiquem
alegres e eu tenha menos tristeza. E peço que vocês o recebam no Senhor com
grande alegria e honrem a homens como este, porque ele quase morreu por amor à
causa de Cristo, arriscando a vida para suprir a ajuda que vocês não me podiam
dar.” Filipenses 2:12-30
Tempos
atrás li a historia de um homem que ansiava pelo cargo de gerencia. Não me recordo os detalhes, mas em resumo, queria
assumir o ponto do seu chefe e achava-se até mais preparado para isso. Um dia,
o chefe havia saído mais cedo, e o homem foi deixar alguns documentos na sala
dele. Vendo a sala organizada e a cadeira, macia e de couro, desocupada,
sentou-se, colocou os pés na mesa e pôs-se a imaginar como seria se fosse o
chefe. Que ações tomaria, como falaria – pensou no quando aquele gerente não
merecia o cargo que tinha. Porém, o gerente retornou de forma imprevista, pois
havia esquecido algo na sala, e, encontrado o empregado em sua cadeira, não
soube com0o reagir. O empregado, por sua vez, sem saber o que fazer, apenas
disse? O que você está fazendo aqui?
Costumamos
agir assim com Deus. Queremos e ansiamos tomar seu lugar e ainda o questionamos
quando ele nos “pega de surpresa”. Após Paulo falar do exemplo extremamente
oposto tomado por Cristo, que despiu-se de sua glória, é solicitado aos
filipenses que vivam uma vida que agrade a Deus. O apóstolo não estava mais ao
lado, como um professor, dizendo o que deviam ou não fazer, mas o Espírito
Santo não os deixariam sós. Todos sabem como os alunos aprontam quando o
professor sai da sala. Paulo os lembra de que, mesmo em sua ausência, devem
desenvolver sua salvação com temor e tremor!
Ao
se falar em desenvolver sua salvação, o apóstolo não quer dizer algo tipo “Deus
ajuda aqueles que se ajudam”. Não! Nossa salvação foi conquistada na Cruz.
Paulo aqui chama a responsabilidade da igreja no crescimento em maturidade. Eles
deveriam estar firmados na verdade da Palavra. Isso é algo que ninguém pode
fazer pelo outro: viver Cristo em sua própria vida. Russell Sheed diz que isso
significa desenvolver-se de tal modo que quando as tempestades da vida
chegarem, não cause erosão. O desenvolvimento da salvação é o aprofundamento
das raízes na terra, de forma que nada as possa sacudir ou remover do lugar.
Paulo sabia que um dia prestaria contas de sua vida diante de Deus e desejava
se alegrar com os Filipeses pelo trabalho bem realizado, assim como o bom servo
da parábola que, mesmo sem saber quando seu senhor voltaria, deixa tudo em
ordem (Mt 24.45-21).
A
igreja deveria então ser como uma luz brilhante no céu, que gasta a si mesmo para
iluminar em meio às trevas, de forma que o mundo veja-nos caminhar em
sinceridade. Cristo nos ensinou que a luz não deve ser colocada debaixo de uma
vasilha ou da cama, mas deve ser colocada em um lugar alto para que todos vejam
(Mt 5.15). Este destaque pode significar perseguição, como significou para
Paulo, que agora oferecia sua vida para que a fé da Igreja se fortaleça. Somos chamados a ser luz com alegria, retendo
a palavra da vida e sem “queixas nem discussões” ou “murmurações nem contendas”,
coisa que fizera Israel ao sair do Egito, deixando de confirar nas promessas
de Deus e reclamando em todo tempo.
É
propicio que Paulo passa a dar noticias suas e de homens fieis que passam a ser
exemplos para a igreja assim como ele. Timóteo deveria ser enviado em breve
para lhes dar noticias sobre o estado jurídico e pessoal de Paulo, bem como
para trazer noticias dos filipenses ao Apóstolo. Com carinho Paulo se refere a
Timóteo como filho – não só espiritual, mas praticamente um filho adotivo – alguém
que tinha o mesmo sentimento que ele, ou seja a mesma mente, e que busca com
sinceridade o bem da Igreja. Timóteo foi homem que abdicou de tudo para servir
ao evangelho, não à toa, seu nome em grego significa “quem honra a Deus” ou “alguém
honrado por Deus”. Interessante ainda
notar que Paulo não o recomenda como um
ótimo mestre ou homem santo, mas como
“interesse sincero pelo bem-estar de vocês”, diferentemente de outros que se
preocupavam somente com seus interesses. Para Paulo, isso era ser um bom
pastor.
Epafrodito
somente aparece nesta cara aos filipenses, mas é apresentado em termos
memoráveis como irmão, cooperador e companheiro de lutas. Irmãos denota seu
estado na casa de Deus, cooperador destaca seu trabalho em prol do evangelho e
companheiro de lutas é um termo militar, referindo-se a luta contra o mal – e neste
versículos, e anteriores, observamos um Paulo mais pessoal, humano,
diferentemente da visão estoica que as pessoas costumam associar aos “Homens de
Deus”, eles também passam por stress, dificuldades e tristezas, como diante da
doença de Epafrodito.
Não só isso, Epafrodito foi o mensageiro da
Igreja em Filipos, designado para enfrentar perigos nas estradas para servir,
auxiliar, nas necessidades do apóstolo. Tal dedicação pode ter lhe rendido uma
enfermidade quase mortal, fato que preocupava a Igreja e razão pelo qual Paulo
o mandava retornar: para dar as boas noticias de sua cura e provavelmente levar
também a carta que estava sendo escrita.
É
recomendado que recebessem Epafrodito com honra, pois se dedicara a causa de
Cristo. Será que Paulo nos recomendaria assim como recomendou Timóteo e Epafrodito
a igreja filipense?
Qual seria a
opinião que Paulo teria formado a nosso respeito? Ele enviaria qualquer um de
nós? Teria percebido a nossa capacidade de cuidar sinceramente dos interesses
dos filipenses ou dos nossos acima do que é de Cristo? Ganharíamos a reputação
de “aprovados” da parte de Paulo pela maneira que temos servido humildemente à
causa? (SHEED, 2005).
Qual
o retrato que Paulo faria de nós?
Referências:
MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário
(Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom. Editora Vida
Nova, 2005.
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians,
Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.
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