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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Dia 7 – Filipenses 3.1-11 – O prazer de conhecer a Cristo



Texto: “Finalmente, meus irmãos, alegrem-se no Senhor! Escrever-lhes de novo as mesmas coisas não é cansativo para mim e é uma segurança para vocês. Cuidado com os cães, cuidado com esses que praticam o mal, cuidado com a falsa circuncisão! Pois nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos pelo Espírito de Deus, que nos gloriamos em Cristo Jesus e não temos confiança alguma na carne, embora eu mesmo tivesse razões para ter tal confiança. Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era lucro, passei a considerar perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé. Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos.” Filipenses 3:1-11
               
                Meus pais gostam de contar a história de um pastor que passou semanas pregadas sobre o mesmo versículo bíblico. Um dos irmãos da igreja, cansado da mesma mensagem resolveu reclamar com o pastor para que mudasse o tema. O pastor então perguntou: sobre o que eu estava pregando, irmão? O irmão incomodado, não conseguia se lembrar do que exatamente o pastor estava pregando, ou mesmo qual do que falava tal versículo, ao que o pastor respondeu: como o irmão ainda não aprendeu o que estava sendo ensinando, creio que isso mostra que ainda estou falando pouco sobre este tema. 

                Na vida espiritual é algo semelhante.  Com frequência tendemos a esquecer daquilo que realmente importa. O apóstolo Paulo não se incomodava em revisar e repetir os mesmos temas, porém sempre acompanhado com a Alegria radiante no Senhor. Repare que a palavra alegria/regozijo aparece cerca de dezesseis vezes na carta aos filipenses. Perceba que o termo é diferente de felicidade. Felicidade relaciona-se com afortunado, ou seja, reações externas que nos afetam pessoalmente, algo circunstancial e favorável que nos deixa positivos, ou seja, feliz. Alegria não refere-se a momentos externos, mas sim as profundezas de nosso ser. Assim como a tempestade só afeta a superfície do oceano, e não suas profundezas, assim é a verdadeira alegria não é afetada por fatores externos. E mais, a alegria que Paulo celebra procede do Senhor! Em 1 Jo 1 é nos dito que a mensagem de Cristo é para que tenhamos alegria, e alegria completa!


                Mas há aqueles que se levantam, inacreditavelmente, contra a graça e misericórdia do Senhor, e a esses, Paulo alerta em termos irônicos  e surpreendentes:  Cuidado com os cães, cuidado com esses que praticam o mal, cuidado com a falsa circuncisão! Antes de nos aprofundarmos neste e nos versículos seguintes, devemos perceber a quem Paulo se dirigia. No começo da era cristã muitos judeus se levantaram e passaram a disseminar aos novos cristãos gentios que estes deveriam se circuncidar e seguir as leis mosaicas para serem salvos, transformando assim, o sacrifício de Cristo em obra incompleta, um adendo à salvação. Era até conhecido que os judeus chamavam os gentios de cães - um animal considerado imundo, pois não servia para alimento e nem sacrifício, e até então pouco ou nada domesticado, ou seja, sem relação com os animais de estimação que temos em casa. Assim, os judeus
se exaltavam de ser povo escolhido de Deus e com vantagens acima dos gentios.

                Paulo combate vários argumentos judaizantes nas cartas aos coríntios e aos gálatas. Aqui ele faz o mesmo, pedindo cuidado. Começa falado dos cães – invertendo aquilo que os judeus pensavam dos gentios. Cães eram aqueles que se autodesignavam guardiões da moral e doutrina. E eles não estão só no século passado, nas palavras de Azevedo (2014): “Há cristão especialista em latir para avisar que seu irmão fraquejou”. São pessoas que acham que edificam, mas não ouvem a voz de Deus e vivem num legalismo rancoroso. Não só isso, os cães também são aqueles que só querem herdar as bênçãos de Cristo, mas nunca vivem num relacionamento com ele. Os maus obreiros são aqueles que Paulo definiu momentos antes, pessoas que buscam somente seus interesses e não os de Cristo. Perceba que todo Cristão é um obreiro, O Espírito Santo distribui dons a todos na Igreja, e precisamos ser bons servos, trabalhando até a volta de Cristo, quem nada faz ou age com relapso ou por motivações erradas, tona-se um mal obreiro. Por fim, os da falsa circuncisão, ou como Paulo usa no original, os da mutilação. Ainda hoje a cristãos que se orgulham com seu legalismo, e sobem ao tempo como o fariseu que disse: obrigado, Senhor, por não ser como aquele miserável pecador!

                E se há uma falsa circuncisão, há também uma verdadeira. Uma que não se vangloria na carne e nas suas próprias obras, mas na de Cristo (Cl 2.10).  A circuncisão realizada em Cristo é completa, é pela fé, e é em nosso coração corrompido.  Nas palavras do Doutor Martyn Lloyd-Jones (2008):
                       Essa é a primeira coisa que caracteriza esta nova vida na qual Paulo se vê. “Não é”, diz ele com efeito, “que eu tenha desistido do judaísmo e assumido o cristianismo; não é que, tendo ouvido algo sobre ele, eu o achei interessante, e gosto de ler a respeito e de discuti-lo de maneira casual, desligada e objetiva Nada disso! Não é essa a postura cristã. O que caracteriza o cristão em primeiro lugar é que, de repente, ele se dá conta de que esta força tomou posse dele e ele não pode safar-se dela; ele é aprisionado, preso por essa força, e depois procura apoderar-se dela.” [...] o cristianismo nunca é um acréscimo à nossa vida, nunca é algo acrescentado ao que já tivemos: ou é central ou não está em parte alguma. 

                A vida de Paulo exemplifica isso. Ele declara primeiro seu nascimento já exclusivo: circuncidado ao oitavo dia, como mandava a lei, símbolo da aliança divina e exclusiva com Israel; pertencente ao povo da promessa e distinto da tribo de Benjamin – tribo de onde originou-se o Rei Saul e única tribo a permanecer com a casa de Davi após a separação das 12 tribos após a morte de Salomão, ou seja os benjamitas  eram exemplos de resistência espiritual quanto seus irmãos mergulhavam na idolatria; hebreu dos hebreus, criado na cultura e religião, mesmo em uma época de helenizarão, ou seja, propagação e imposição da cultura grega – fato que gerou perseguição aos judeus. Com vasto currículo que poucos teriam, Paulo fala de suas escolhas pessoais: era fariseu, seita das mais fieis e estudiosas da Lei divina, era exigentes nas operações, jejuns e dízimos. Tão zeloso a Palavra que perseguiu igreja, lançou vários nas prisões e consentiu com a morte de Estevão. Porém, olhando para trás, ou contabilizando tudo, Paulo viu aquilo como Perda, ou mesmo esterco (termo que trás a ideia original, mas ainda não expresse a repugnância de forma enfática):

Foi uma perda tão completa que não havia como recuperá-la, de nenhuma forma, absolutamente. Então o versículo sete diz: “Considerei tudo perda, por causa de Cristo”. Fica claro, portanto, que ou perdemos todos os valores religiosos para ganhar Cristo, ou nos apegamos a eles e perdemos a Cristo. A mensagem inconfundível é que você não pode manter a justiça que criou para si, do legalismo judaico, e abraçar a Cristo ao mesmo tempo. (SHEED, 2005)

                Paulo sabia que sua justificação não procedia de si mesmo e das obras de sua carne, e que, de fato, aquilo que deixava para trás somente o impedia de enxergar a realidade, ou seja, a corrupção de seu coração e o fato de que só Deus, através de Cristo, o poderia tornar Justo. Lloyde Jones está certo ao afirmar que podemos crescer na graça, mas no leito de morte, nossa única esperança será a justiça de Cristo. Livre da corrida por justiça própria, Paulo podia então se concentrar naquilo que importava conhecer a Cristo: o poder de sua ressurreição, o mesmo que transforma o mundo, nos vivifica, e atuará na ressurreição dos mortos; e mesmo partilhar de seus sofrimentos, ou seja, se necessário morrer anunciando o nome de Cristo, pregar o evangelho não importando a dificuldade. Esse conhecimento que Paulo buscava não era meramente intelectual, mas de relacionamento, de comprometimento e de vivencia em Cristo. Que possamos perseguir também o mesmo objetivo e alegria e sem esquecer aquilo que importa. 

Referências:

AZEVEDO, Israel, Belo de. Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas tema por tema.  Editora Hagnos, 2014.
MARTIN, Ralph P. Filipenses – Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
LLOYD-JONES, Martin. A vida de Paz – Comentário sobre filipenses, Volume 2 - Capítulos 3 e 4. PES, Publicações evangélicas selecionadas, 2008.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. Editora Vida Nova, 2005. 
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.

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