Texto: “Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma
consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis
afetos e compaixões, Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o
mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda
ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a
si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual
também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que
houve também em Cristo Jesus,
Que, sendo em forma de Deus,
não teve por usurpação ser igual a Deus,
Mas esvaziou-se a si mesmo,
tomando a forma de servo,
fazendo-se semelhante aos
homens;
E, achado na forma de homem,
humilhou-se a si mesmo,
sendo obediente até à morte,
e morte de cruz.
Por isso, também Deus o exaltou soberanamente,
e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos
céus,
e na terra, e debaixo da terra,
E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.” Filipenses 2:1-11
Dando
continuidade a sua exortação a unidade para igreja filipense, não podemos
deixar de perguntar: seria isso realmente possível? Há tantas divisões e
desentendimentos, tantas ideias divergentes, tanto egoísmo e desanimo... Como a
Igreja permanecerá unida? A resposta está no Pai, no filho e no Espírito Santo.
Em Cristo recebemos motivação, ou exortação em
outras linguagens. Esta expressão significa companhia orientadora de Cristo, ou
seja, temos nosso salvador a nos guiar, ensinar a viver uma nova vida. Exortar
anda junto com corrigir. Jesus nos exorta a humildade (como veremos nos
versículos seguintes). Passamos a seguir seu exemplo, que se “esvaziou” de sua
divindade e nos ensina a nos esvaziarmos de nós mesmos, de nossa soberba,
desejos impróprios, autoconfiança exagerada, comportamentos errados, etc. Sabemos que o triunfo está em Cristo e nele
obtemos a vitória (Fl. 2.10-11), precisamos assim andar em sua exortação,
confiando em Sua Palavra: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século.”
(Mt. 28.20)
“se há alguma consolação em amor”, que amor é este
de que Paulo trata? Este é o amor divino, ágape, sem restrições. O sentido aqui
está ligado ao encorajamento que “retrata chegar ao lado de alguém e tomar a
mão da pessoa. O amor faz isso: dá ao cristão que sofre de letargia, um impulso
para frente” (SHEED, 2005). Não esqueçamos que o verdadeiro amor vem de Deus,
Ele é o próprio amor, e todo aquele que ama procede de Deus (1 Jo 3 e 4). Se há falta de amor, é preciso uma renovação
espiritual, pois o amor de Cristo deve alcançar até mesmo os inimigos.
A comunhão é alimentada pelo Espírito Santo. Ele
nos identifica como membros de uma mesma família de forma que clamamos Aba,
Pai. Quando o Espírito age em nós, ”somos capazes de nutris afetos e compaixões
e comportamento próprio” (AZEVEDO, 2014). É interessante o termo “entranháveis
afetos e compaixões”, o termo grego splanchna
significa literalmente entranhas humanas, que eram consideradas a cede da
vida emocional. Aqui ainda se fala de amor mutuo, mas de um tipo intensamente
pessoal, de forma que nossas atitudes para com o outro não sejam algo forçado,
mas natural, com simpatia.
Somos campeões de misericórdia
forçada, talvez por ouvirmos o mandamento de Jesus de Jesus nesse sentido. No
entanto, nosso afeto deve decorrer do fato
de que temos a mente de Cristo, de que estamos em Cristo. Não é um
sorriso para mostrar que amamos, mas um sorriso porque amamos. Não é um abraço
para parecermos afetuosos, mas um abraço prazeroso de amor e interesse pelo
outro. (AZEVEDO, 2014)
E este é só o principio. Paulo
pede que completem, ou seja transbordem, seu contentamento ao sentirem a mesma
coisa, terem o mesmo animo e considerarem o outro superiores a si mesmo. MARTIN
(1985) chama a atenção ao termo “de modo que penseis a mesma coisa” ou “sentindo
uma mesma coisa”, termos grego phronei
(também em 1.7), verbo que aparece cerca de 10 vezes só nesta epistola – e 13
em outras cartas – que significa (recapitulando) “uma combinação de atividades
intelectuais e efetivas, que toca tanto a mente como o coração, e conduz a uma
ação positiva”. O fato de buscarem uma só mente e um só coração enfatiza a
busca da vida de comunhão comum na Igreja.
Paulo usa um termo que pode ter
criado, um neologismo, “almar-se juntos”, referindo-se a uma espécie de unidade
na qual duas personalidades se unem em uma só (SHEED, 2005). Observe quem que nada deveria ser feito com contenda ou
vanglória. Tudo deve ser marcado por unidade e pelo exemplo de Cristo. João
Calvino nos ensina que a “vanglória encanta a mente dos homens, de modo que
todos ficam lisonjeados com suas próprias invenções”. Assim, não se deve atentar para o que é propriamente seu, mas
cada qual também para o que é dos outros. Consideramos os outros
superiores, e isso não quer dizer que devemos andar com complexo de
inferioridade, mas sim que devemos fazer uma avaliação correta dos dons de Deus
e de nossas fraquezas. Nas palavras de Calvino:
Pois por mais que alguém possa ser distinguido por talentos ilustres,
deve lembrar que eles não lhe foram concedidos para que fosse autocomplacente,
para que pudesse se exaltar ou para que pudesse estimar a si mesmo. Em vez
disso, essa pessoa deve usar isso para examinar e corrigir as faltas e, assim,
terá abundantes oportunidades para a humildade. Mas, em outros, a tudo o que é
elogiável, eles atribuirão honra e, por meio do amor, sepultarão faltas. Quem
observar essa regra não terá dificuldades em considerar os outros superiores a
si mesmo.
Referências:
MARTIN, Ralph P. Filipenses
– Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
TOMLIN,
Graham (org.) Filipenses e
Colossenses – Comentário Bíblico da Reforma. Editora Cultura Cristã. 2015.
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