Texto: “Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos
em Cristo Jesus, que estão em Filipos, com os bispos e diáconos: Graça a vós, e
paz da parte de Deus nosso Pai e da do Senhor Jesus Cristo. Dou graças ao meu
Deus todas as vezes que me lembro de vós, Fazendo sempre com alegria oração por
vós em todas as minhas súplicas, Pela vossa cooperação no evangelho desde o
primeiro dia até agora. Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou
a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo; Como tenho por justo
sentir isto de vós todos, porque vos retenho em meu coração, pois todos vós
fostes participantes da minha graça, tanto nas minhas prisões como na minha
defesa e confirmação do evangelho. Porque Deus me é testemunha das saudades que
de todos vós tenho, em entranhável afeição de Jesus Cristo. E peço isto: que o vosso amor
cresça mais e mais em ciência e em todo o conhecimento, Para que aproveis as
coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia
de Cristo; Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória
e louvor de Deus.” Filipenses 1:1-11
Paulo
apresenta grande amor pela igreja filipense: “Dou graças ao meu Deus todas as
vezes que me lembro de vós, Fazendo sempre com alegria oração (...) vos retenho
em meu coração, pois todos vós fostes participantes da minha graça (...).
Porque Deus me é testemunha das saudades que de todos vós tenho, em entranhável
afeição de Jesus Cristo.”. E de fato era uma igreja muito especial para ele,
primeiro pela forma sobrenatural em que trabalho começou (narrado em Atos 16),
demonstrando a graça de Deus naquela região. Segundo, que esse amor era reciproco
– foi uma a única Igreja, até então, que se preocupou com o apóstolo a ponto de
enviar auxilio financeiro. A isto Paulo sentia-se grato e “comovido ao ver que
esta igreja lhe queria bem o suficiente para associar-se materialmente na sua
tribulação” (SHEDD, 2006). Trechos
paralelos em Romanos 15.26 e 2 Coríntios 8.7 e 9.13 relatam, a atitude
generosa, sacrificial e em constância e fidelidade dos macedônios.
Entenda isso, na prisão não era costume
alimentar ou suprir o prisioneiro em alguma necessidade, como acontece no
Brasil, e Paulo também não poderia trabalhar na fabricação de tendas como era
seu costume para suprir seus gastos. Assim, o fato de uma região diferente
levantar recursos e envia-los em uma perigosa jornada (veja o exemplo do Bom
samaritano) para ajudar Paulo em suas necessidades serve de grande testemunho a
esta igreja. Por isso se fala aqui em parceria, ou sociedade, traduzido aqui
por “participantes da minha graça”.
Diante disso,
Paulo louva a Deus e rende graças aquele que começou e completará a boa obra
nos filipenses. Como bem coloca Israel Belo de Azevedo:
“A graça de Deus nos torna cooperadores (colaboradores,
“correalizadores”) de sua obra no mundo (Fp 1.5). Essa obra se desenvolve na
contramão dos interesses dos nossos contemporâneos e mesmo de nossos próprios
interesses , que são naturalmente outros. Como a obra lhe pertence, Deus nos
capacitará a leva-la até o fim, apesar dos nossos ouvintes e apesar de nós mesmos.” (AZEVEDO, 2014).
Precisamos
entender que é Deus sempre que começa, por sua graça revelada em amor, e é Ele
que também termina. Embora não mereçamos, o Deus que começa é o Deus que
termina a boa obra, não a deixando pela metade. Aliás, Deus só escreve obras
completas. Por isso Paulo poderia declarar ao fim de sua vida: “Combati o bom
combate, terminei a corrida, guardei a fé” (1 Tm 4.7). Facilmente somos
tentados a pensar tudo gira ao nosso redor e que temos que convencer os outros
a se voltarem para Cristo, mas “Se há genuína fé no Cristo ressurreto, genuína fidelidade
a ele como rei, isso somente acontece porque o poder vivo de Deus trabalhou,
através do evangelho, no coração das pessoas; o que Deus começa, ele sempre
termina.” (Wright,2014, Tradução
livre). Nesta confiança do agir de Deus, Paulo então ora pelos filipenses. Aqui
há três pontos importantes:
Primeiro, que o vosso amor cresça mais e mais em
ciência e em todo o conhecimento: o amor deveria superabundar em todo
conhecimento e sabedoria. Paul Whight está certo ao dizer que não costumamos
pensar no amor nestes termos. Geralmente associamos amor com emoções ou
afeições e não ciência e conhecimento ou sabedoria. Mas para Paulo, não havia a
divisão que fazemos da mente e do coração. Se nosso amor é genuíno, verdadeiro amor por Cristo e uns aos outros, ele
encontra seu caminho no amor e na sabedoria. “Para o cristão, a mola metra,
tanto de seu conhecimento daquilo que é excelência moral, como de seu desejo de
traduzir a aprovação em ação é o amor.”
(MARTIN, 1985).
Segundo, Para que aproveis as coisas excelentes,
para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo. Esse
amor deveria resultar em discernimento moral. Assim como os filipenses, vivemos
em um mundo de moral corrompida onde nem sempre é fácil discernir o certo do
errado. Paulo ora para que possam saber
a diferença entre bom e do ruim. Nossa vida deve ser encontrada santa, sem
ofensa, de forma a desenvolvermos atitudes próprias de quem tem o selo do
Espirito Santo. O termo chave aqui é aprovar
as coisas excelentes. O verbo aprovar (gr. Dozimazein) significa “pôr sob teste” e depois “aceitar quando
testado”. Somos convidados a conhecer, por experiência própria e discernir a
partir deste conhecimento o falso do verdadeiro. “Em outras palavras, aprovar significa ter
prazer naquilo que é essencial, não naquilo que é superficial.” (AZEVEDO,
2014).
Ao fazermos
distinção do melhor, podemos ser encontrados sinceros e inculpáveis quando
Cristo voltar. Russell Shedd, explica bem o significado disto:
A palavra “sincero” tem seu significado numa pratica comum do mundo antigo. Os potes de barro eram vasilhas
domesticas habituais, usadas na cozinha como na sala de jantar. Uma das
indústrias mais movimentadas era a de fazer potes e pratos, porque eles se
quebravam com muita frequência. Eram fabricados de barro queimado que, depois
de muito cozido e moldado na roda do oleiro, ia para o forno. Ficavam duros e
quebradiços. Quando menino, eu olhava os oleiros fazendo potes de barro. De vez
em quando, esses potes se rachavam ou ficavam com um buraco. Em vez de jogar
fora o vaso inútil, alguns oleiros sem escrúpulos passavam um pouco de cera
sobre o buraco. Quando alguém comprava, não percebia a rachadura a não ser que
duvidasse da qualidade do artigo. Nesse caso, bastava virá-lo para o lado do
sol. A cera, sendo apenas opaca, dava passagem à luz. Portanto, a palavra grega
significa “testado pelo sol”, enquanto que a palavra “sincera” do nosso idioma
vem do latim e quer dizer “sem cera”.
O
terceiro e ultimo aspecto é para que sejamos “cheios dos frutos de justiça”. O
fruto da justiça é o resultado de Cristo habitando em nosso interior e do fato
se fazemos parte de sua família. Refere-se, então, ao fato de sermos coerentes
com a justificação recebida pela graça de Deus. O cristão prova e aprova as coisas
excelentes e vive com qualidade. Tudo
isso, porém, é enfatizado e realizado para a Glória de Deus, de forma a
glorificar seu nome.
Referências:
AZEVEDO, Israel, Belo de.
Pastoreados por Paulo, Volume 2 – As mensagens de Filipenses a Filemom comentadas
tema por tema. Editora Hagnos, 2014.
MARTIN, Ralph P. Filipenses
– Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
Wright,
Tom. Paul for Everyone: The Prison
Letters: Ephesians, Philippians, Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.
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