Texto: “Quero que saibam, irmãos, que aquilo que me aconteceu tem
antes servido para o progresso do evangelho. Como resultado, tornou-se evidente
a toda a guarda do palácio e a todos os demais que estou na prisão por causa de
Cristo. E a maioria dos irmãos, motivados no Senhor pela minha prisão, estão
anunciando a palavra com maior determinação e destemor. É verdade que alguns
pregam a Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade.
Estes o fazem por amor, sabendo que aqui me encontro para a defesa do
evangelho. Aqueles pregam a Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade,
pensando que me podem causar sofrimento enquanto estou preso. Mas, que importa?
O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros,
Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro.” Filipenses 1:12-18a
Nem
sempre percebemos o agir de Deus em nossas vidas cotidianas. Jose é um exemplo contrário.
Movidos por ódio e inveja, seus irmãos o venderam a mercadores. Tornou-se
escravo no Egito, onde foi falsamente acusado de tentar molestar a mulher de
Potifar. Preso, solucionou o sonho do padeiro e do copeiro do faraó, para ser
esquecido até momento oportuno. Já como segundo do faraó, reencontra e testa o
estado do coração dos irmãos. Em um dos momentos mais belos da Bíblia, entre
lagrimas e sorrisos, a família se abraça e reconcilia. Porém, quando o
patriarca Jacó vem a falecer, duvidas tomam conta do coração dos irmãos, “Agora
José se vingara de tudo que fizemos!”. Diante disso ouvem a resposta de José: “Não
tenham medo. Estaria eu no lugar de Deus? Vocês planejaram o mal contra mim,
mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos.”
(Gênesis 50.18-19). E assim ele os tranquilizou e cuidou de suas famílias. José
havia percebido que toda sua vida fora conduzida por Deus para o proposito de
abençoar sua própria família e de muitas outras.
Isso
não é raro na Bíblia e na história do povo de Deus. Ester pôde perceber que para aquele momento,
onde Hamã tentava eliminar os judeus, ela havia sido escolhida como esposa do
rei. Da mesma forma, a igreja primitiva pode não ter percebido a principio o
porquê das dificuldades e perseguições enfrentadas em Jerusalém, apesar dos
muitos alertas de Jesus, mas através da perseguição a Igreja alcançou todo o
mundo conhecido na época. Assim, Paulo, não analisando ao fim de sua vida, mas
no decorrer dos acontecimentos, percebe que sua prisão era algo que Deus estava
usando para propagar o evangelho. Aqui, Paulo não somente conta quais as circunstâncias
em se encontra, mas também como as entende, como reage as mesmas. Nossa atitude, e não nossas circunstancias,
determina quem somos e como encaramos a vida (passado, presente e futuro) e
Paulo tinha seus olhos somente em Cristo. João Calvino explicita isso bem:
Que visão
terrível! Se víssemos apenas a crueldade e a fúria de nossos perseguidores,
isso despedaçaria nossas esperanças. Quando, porém, vemos, ao mesmo tempo, a
mão do Senhor, que toma seu povo invencível sob a fraqueza da cruz e o faz
triunfar, devemos nos empenhar mais ousadamente do que de costume, confiando
nisso, pois já temos, em nossos irmãos, o penhor da vitória. O conhecimento
disso deve vencer nossos temores, para que possamos falar ousadamente em meio a
perigos.
O apóstolo já havia sofrido muito por amor a Cristo e a mensagem do evangelho.
Espancado, preso, injustiçado, recebeu chibatadas, passou por naufrágios e
tentativas de assassinatos contra sua vida. Diante de tudo isso, Paulo entendia
que todas as coisas cooperavam para o bem dos que amam a Deus e andam segundo
seus propósitos (Rm 8.28). Não que ele fosse sobre-humano, ou gostasse de ser
torturado, mas ele percebia como aquilo afetava na propagação do reino de
Cristo. Muitos talvez afirmassem que o evangelho estava em perigo, ou que seu
sofrimento o desqualificava como apostolo. Paulo rebate isso e explica o porquê
destas situações.
O
termo traduzido por progresso
significa, mais especificamente “avanço a despeito de obstruções e perigos que
bloqueiam o caminho do viajante”. Russell Shedd explica que esse é “um termo
militar, que retrata trabalhadores com manchetes e machados abrindo caminho
através da mata, a fim de preparar passagem para o exército” (SHEDD, 2005),
assim, é como se Paulo dissesse que já esteve ali, na frente, mas que louva a
Deus por que nosso exercito continua a avançar e o evangelho já é conhecido
mesmo por toda a guarda pretoriana.
Como pode a
perseguição dos santos promover o evangelho? Herry Airay nos responde bem:
(1) Pelo poder
de Cristo. (2) Pelo exemplo da constância dos santos em seus sofrimentos. (3)
Pela liberdade do evangelho até mesmo quando os santos são presos por causa
dele.
Paulo percebeu, então, duas classes de
pessoas. Havia aquelas que pregavam com sinceridade, e ainda com mais ousadia,
estimulados ao saberem de sua prisão, passando a seguir seu exemplo. Outros já o
faziam por motivos indignos, por inveja, discórdia e rivalidade. Estes
opositores são geralmente apontados como pessoas que pregavam contra o que
Paulo dizia, como a necessidade de praticas judaicas, como a circuncisão, por
exemplo, para conseguir a salvação – ou mesmo agitadores que queriam causar
mais problemas a Paulo na prisão. No entanto, concordo com Paul Wright quando
afirma ser mais possível que pagãos normais que ouviram sobre a situação e
confusão gerada pela prisão de Paulo e que o estavam propagando boca a boca
pelas ruas: “Já ouviu falar sobre isso? Ele foi preso pregando sobre um novo
rei, um novo imperador! Um rei judeu crucificado anos atrás! Os guardas de sua
cela ouviram-no dizer que este rei ressuscitou, está vivo e voltará... que Ele
é o verdadeiro Senhor do mundo! ”. Isso despertaria interesse por Paulo e por sua mensagem. Assim,
a reação de Paulo era de celebração, pois de uma maneira ou de outra, Cristo
estava sendo pregado como Rei e Senhor!
Facilmente
podemos nos sentir desencorajados com as situações adversas na vida. Porém, podemos aprender com Paulo, que ao
focarmos em Cristo, vemos seu agir, nem sempre compreensível de imediato, mas
sempre eficaz.
Referências:
MARTIN, Ralph P. Filipenses
– Introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). Editora vida Nova, 1985.
SHEDD, Russell P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão – Uma analise de Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom. Editora Vida Nova, 2005.
TOMLIN,
Graham (org.) Filipenses e
Colossenses – Comentário Bíblico da Reforma. Editora Cultura Cristã. 2015.
Wright, Tom. Paul for Everyone: The Prison Letters: Ephesians, Philippians,
Colossians, and Philemon (The New Testament for Everyone). Westminster John Knox Press, 2014.
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