Apesar
de muita coisa para ler, acabei passando em uma livraria e levei o livro do incomparável
John Stott, teólogo anglicano que faleceu
em 2011. Na Obra “A missão cristã no mundo moderno”, editora Ultimato, Stott fala
sobre a missão da Igreja: desempenhar aquilo que o Senhor incumbiu. Mas o que
exatamente o Senhor incumbiu? Qual foi mesmo a missão que nos foi confiada?
Muitos acabaram focando em um dos dois pontos, evangelização dos povos,
compartilhar as boas novas do evangelho (tratado quase como sinônimo de missão
nas igrejas) e a ação social, cuidado com os órfãos e viúvas, alimentando os famintos
e saciando os sedentos, ajuda medica e socioeconômica em países necessitados.
Com
a tendência humana a debandar para um lado da balança, sempre buscando
extremos, muitas vezes a Igreja ficou entre um dos lados: A Grande comissão (Mateus 28.19-20) versus As boas obras (João
14:11, Tiago 2:14-26). Desta forma perdemos o foco do que diz o segundo dos
dois maiores mandamentos:
Mestre,
qual é o grande mandamento na Lei?
Respondeu-lhe
Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e
de todo o teu entendimento.
Este
é o grande e primeiro mandamento.
O
segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Destes
dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.
Mateus 22.36-40
Não há favoritismos
na Palavra, ambas fazem parte da nossa missão na terra e todas devem ser
marcadas pelo Amor. No relato de John Stott:
O apostolo
João me ajudou a compreender isso com as palavras de sua primeira carta: “Ora,
aquele que possuir recursos deste mundo, e vir seu irmão padecer necessidade, e
fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos,
não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1 João 3.17-18).
Aqui o amor em ação emerge de uma situação com dois momentos. Primeiro, “Ver”
um irmão passando necessidade e segundo, “possuir” os meios para satisfazer
essas necessidades. Se eu não relacionar o que “tenho” ao que “vejo”, não posso
afirmar que o amor de Deus habita em mim. Além do mais, esse principio se
aplica a qualquer tipo de necessidade vista. Posso ver uma necessidade
espiritual (pecado, culpa, perdição) e ter o conhecimento do evangelho que
satisfará essa necessidade. Ou a necessidade que vejo pode ser uma enfermidade,
ignorância ou uma moradia precária e posso ter o conhecimento médico,
educacional ou social para aliviar a situação. (pág. 32-33)
O
amor nos impulsiona a agir em favor e compaixão pelo próximo, mesmo os
inimigos. E isso a Igreja precisa aprender. Parece estranho dizer isso, mas
precisamos aprender a amar. É fácil ter uma distancia saudável, talvez até
ajudar uma obra de caridade, mas se envolver parece ser para poucos – quando a Bíblia
diz que é para os discípulos, cada um, claro, conforme seu chamado.
Recentemente
li um ótimo artigo da Bráulia Ribeiro, leia
aqui, onde ela apontava sua repulsa por títulos, termos e clichês usados em
termos de missão e que nos afastam do foco que é amar. E para amar precisamos
reconhecer o nosso próximo e sua necessidade. Raramente pensamos na Igreja
perseguida como composta de pessoas com carne e osso, como eu e você, que tem
seus dilemas, que também sentem fome e sede, amor e desejo, duvidadas e
desespero. Não damos uma cara para essa Igreja porque isso nos tornaria muito próximos,
algo que começa a se tornar pessoal.
Claro
que nem todos terão condição de visitar e conhecer esses irmãos. Mas em tempos
de DIP, penso na importância de ouvir seus testemunhos, suas historias, seu
contexto. Essa aproximação gera afinidade, identidade e, por fim, amor. Quando
vemos uma guerra sendo travada e anunciada nos jornais, paramos para pensar que
ali existe uma Igreja? Um corpo vivo de Cristo, lutando para sobreviver? Oramos
pelas mães que penderam filhos e maridos? Oramos pelas crianças cercadas de
canhões e balas perdidas?
Onde está a face da Igreja Perseguida? Onde está o nosso amor? Onde está a nossa
missão?
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